O impacto da tecnologia digital no olho seco: o paradoxo do século XXI

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J. Salgado Borges Oftalmologista, Diretor da Clinsborges e Embaixador da TFOS

No século XXI, a geração de nativos digitais é constantemente cercada e bombardeada por estímulos digitais, numa exposição diária excessivamente prolongada e alarmante.

O Olho Seco não é um mito, mas um verdadeiro problema de Saúde Pública: mais de 15% dos adultos (um milhão e meio de portugueses) testemunham queixas de dor e desconforto ocular.

Esta condição pode ser definida pelo desajuste entre a qualidade/quantidade da secreção lacrimal e as necessidades de lubrificação da superfície ocular.

Da utilização desenfreada dos ecrãs, e consequente diminuição do pestanejo, à exposição de variados poluentes ambientes, sendo o tabaco e o seu efeito na destabilização da película lacrimal uma das principais ameaças.

A somar a estes estão a humidificação deficiente, o aumento da evaporação da lágrima e o aumento exponencial das viagens de avião. A maquilhagem, ainda que aparentemente inofensiva, ao libertar substâncias indesejáveis, é outro agente nocivo no equilíbrio da película lacrimal.

As lentes de contacto atuam de forma prejudicial, induzindo uma maior tendência para a evaporação do filme lacrimal. As técnicas de cirurgia refrativa, em particular o Lasik, também podem agravar a secura ocular.

O Olho Seco é detetado através de um conjunto de sinais e sintomas inespecíficos, entre os quais figuram a sensação de picada ou corpo estranho, ardor e lacrimejo excessivo.

Procuram-se potenciais correlações entre as queixas e os fatores ambientais, o uso de lentes de contacto e medicamentos, como antidepressivos ou anti-hipertensores. A produção de lágrimas é ainda afetada por fatores hormonais, com maior incidência nas mulheres, após a menopausa.

A par da história e de um exame oftalmológico rigoroso, o diagnóstico clínico do Olho Seco é igualmente fundamental. Quando o olho expressa sintomas como ardência/picada, trata-se de um Olho Seco, maioritariamente evaporativo ou causado por hipossecreção lacrimal.

Para diagnosticar eficazmente o Olho Seco foram desenvolvidas soluções inovadoras e não invasivas, como o Keratograph ou o Thearlab.

A terapia mais comum a todas as situações de Olho Seco é a aplicação de lágrimas artificiais sem conservantes. O uso de lágrimas artificiais com conservantes exige uma atenção redobrada, levando em consideração os efeitos tóxicos e indutores de alergias, com potencial para intensificar a condição de Olho Seco.

Graças aos sucessivos avanços tecnológicos, contamos com novas armas terapêuticas, nomeadamente o uso de anti-inflamatórios não esteróides, corticóides ou ciclosporina.

Os avanços mais recentes no tratamento do Olho Seco incluem a Luz Pulsada (IPL) e o Plasma Rico em Plaquetas (ENDORET) para situações moderadas e severas.

Numa Era em que se vive agarrado a ecrãs é fundamental consciencializar a população da importância da redução do número de horas diárias de exposição tecnológica.

Acredito que será possível continuar a alcançar vitórias no combate a uma das doenças mais silenciosas da atualidade, o Olho Seco.

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