“O setor foi resiliente”

A APEMIP representa os profissionais da mediação imobiliária em Portugal. Este foi um setor que também se viu afetado pela pandemia, sobretudo na forma de relacionamento com os clientes e no desenvolvimento do negócio. Em entrevista, Luís Lima, presidente desta associação, salienta o comportamento resiliente do setor durante este período.

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Luís Lima, presidente

Como apoiou a APEMIP os seus associados?

Durante o primeiro confinamento, envidámos todos os esforços para fazer chegar ao Governo as nossas propostas de medidas de proteção das pequenas e médias empresas, tais como a suspensão de penhoras fiscais, financiamento à tesouraria das empresas, suspensão dos despejos no comércio e serviços e implementação de moratórias. Neste período, abrimos igualmente os serviços e apoio prestado pela APEMIP a todas as empresas de mediação imobiliária, independentemente da sua situação associativa, esclarecendo sobre todas as dúvidas e questões que iam surgindo. Auscultámos as empresas, redirecionámos a nossa formação para o online, e envidámos todos os esforços para conseguir que o CAE da Mediação fosse integrado nas linhas de crédito que foram criadas, e para que estivesse contemplado na primeira fase de desconfinamento, o que aconteceu em maio de 2020, e agora em 15 de março.

O mercado imobiliário sofreu alterações diretas nas tendências de consumo, com as pessoas a optarem por sair das cidades e ir viver para o interior do país?

Efetivamente registou-se um aumento da procura por moradias fora das grandes cidades, que aumentou durante os períodos de confinamento, mas não podemos confirmar que esta é uma tendência, pois o negócio efetivo não tem ainda expressão no panorama do mercado.

As atividades profissionais também sofreram alterações com a chegada da pandemia, nomeadamente com o teletrabalho. Há empresas que consideram a hipótese de deixarem o escritório físico e apostarem a 100 por cento no trabalho à distância. Isto pode trazer consequências para o mercado imobiliário?

Sim, poderá promover a introdução algumas dinâmicas diferentes, por via da possibilidade de as pessoas poderem viver mais deslocadas do seu local de trabalho e também na realidade atual do mercado de escritórios.

Qual o impacto que o fim das moratórias terá no mercado imobiliário?

Para os particulares com crédito à habitação, o fim das moratórias poderá resultar num cenário de incumprimento do pagamento das prestações de crédito, podendo dar-se o caso de resultar num aumento significativo da oferta imobiliária, motivado por pessoas com urgência e necessidade em realizar liquidez imediata que poderão, perante esta situação, ver-se tentadas a desvalorizar o seu património para acelerar a venda do ativo, e por outro lado, poderá dar-se o caso de colapso e de entrega do ativo aos bancos. Já tivemos uma experiência traumática no passado, e há que evitar a todo o custo um cenário em que as famílias deixam de conseguir pagar as suas prestações de crédito.

Como avalia a forma como o setor atravessou este período e os apoios que o Governo concedeu?

Em termos globais, podemos concluir que o imobiliário conseguiu demonstrar a sua resiliência ao longo do ano, apesar de todas as dificuldades decorrentes da situação pandémica. Esta resiliência foi assente sobretudo no mercado interno, que concentrou mais de 80 por cento das transações com uma procura a manter-se elevada. No entanto, sou da opinião que, apesar de o Governo ter incluído o setor nas primeiras fases de desconfinamento, não o considerou adequadamente, nomeadamente nos programas de apoio em que o CAE da mediação não esteve integrado.

Como antecipa o comportamento do mercado, nos próximos meses?

O desempenho do setor dependerá da evolução da situação sanitária. Será importante analisar os dados das transações efetuadas no primeiro trimestre do ano – enquanto o setor se viu impedido de realizar visitas presenciais – e pensar nas consequências que o eventual fim das moratórias de crédito poderá ter no mercado imobiliário.

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