Houve algum momento em que a R-nuucell optou por seguir um caminho menos consensual? O que vos levou a acreditar que essa era a direção certa?
O percurso da R-nuucell tem sido atípico, no melhor sentido da palavra. Tudo começou quando o Tec Labs, incubadora da Faculdade de Ciências da Universidade de Lisboa, nos desafiou a concorrer ao ScienceIN2Business, concurso que vencemos e que, no ano seguinte, nos trouxe investimento de Business Angels. Foi uma situação pouco comum para um projeto ainda numa fase inicial, mas revelou-se decisiva, pois permitiu dar continuidade ao trabalho e manter a patente internacional, essencial no desenvolvimento de novos fármacos. Esta oportunidade marcou também a passagem do contexto académico para o empreendedorismo, obrigando-nos a adotar uma visão mais abrangente sobre inovação, impacto e sustentabilidade. Em 2021, criámos a R-nuucell, que tem garantido sucessivos financiamentos através da conquista de prémios científicos internacionais, sem diluição de capital. Olhando para trás, percebemos que foram precisamente as decisões menos óbvias que mais contribuíram para o nosso crescimento. O sucesso raramente acontece dentro da zona de conforto.
O que ainda falta para que mais investigação de excelência consiga dar o salto para empresas tecnológicas globais e criar impacto inter nacional?
O principal desafio no desenvolvimento de novos fármacos continua a ser o acesso a financiamento especializado. Em Portugal, a captação deste tipo de capital é ainda limitada, apesar de serem necessários investimentos de cerca de 30 milhões de euros para alcançar as fases I ou II dos ensaios clínicos. Reforçar o apoio à inovação científica será essencial para transformar conhecimento em impacto económico e internacional.
Como se constrói uma cultura de inovação capaz de manter a equipa motivada, resiliente e focada, mesmo quando o sucesso depende de um longo percurso de validação cientí fica e regulatória?
Sendo químicas de formação, o nosso trabalho centra-se na criação de novas moléculas. Por isso, acreditamos que a motivação passa por não depender de um único caminho. Num setor em que os resultados podem demorar anos, é essencial criar metas intermédias que permitam reconhecer o progresso. Na R-nuucell, cultivamos uma cultura de inovação baseada na curiosidade científica e na capacidade de adaptação. Desenvolver vários projetos em paralelo permite gerir melhor o risco e manter o entusiasmo, porque cada avanço representa mais um passo em direção ao objetivo.
“Sendo químicas de formação, o nosso trabalho centra-se na criação de novas moléculas. Por isso, acreditamos que a motivação passa por não depender de um único caminho. Na R-nuucell, cultivamos uma cultura de inovação baseada na curiosidade científica e na capacidade de adaptação”
Qual gostaria que fosse o legado da R-nuucell: uma inovação terapêutica, um novo modelo de transferência de conhecimento ou a prova de que Portugal pode liderar ciência de fronteira com impacto global?
Sem dúvida, uma inovação terapêutica. Isso significaria que conseguimos ultrapassar os desafios científicos, tecnológicos, regulatórios e financeiros inerentes ao desenvolvimento de um novo medicamento, oferecendo esperança a pessoas que enfrentam cancros para os quais ainda existem poucas respostas.
Mais do que o reconhecimento científico ou empresarial, o nosso maior objetivo é desenvolver soluções terapêuticas que contribuam para o combate a uma das doenças mais letais da humanidade. Se o conseguirmos, esse será o legado mais importante que a R-nuucell poderá deixar.











