Reconhecida pela Organização Mundial da Saúde como uma doença crónica complexa, a obesidade continua a ser reduzida a uma questão de falta de controlo, disciplina ou motivação. Para Rita Santos este preconceito é o maior obstáculo ao tratamento da doença. “A obesidade tem uma origem genética, influencia o nosso cérebro de forma inconsciente e, na maioria dos casos, foge ao controlo da vontade ou da motivação da pessoa”, explica.
Contudo, o preconceito persiste. “Existe a ideia de que a obesidade resulta de más escolhas de comportamento, de falta de força de vontade, de motivação ou até de preguiça. Este é um dos maiores equívocos, porque reduz uma doença real a uma questão de carácter”, sublinha. Mais do que uma condição física, alerta para o impacto emocional e psicológico associado ao julgamento constante. “Quem vive com obesidade sente vergonha, culpa e deixa mesmo de procurar ajuda”.
Perante esta realidade, defende uma resposta mais estruturada por parte do SNS e a aposta numa abordagem multidisciplinar, que integre psicologia, nutrição, exercício físico, fisioterapia, terapêutica farmacológica e cirurgia, sempre ajustada às necessidades de cada doente. Foi precisamente para responder a estas lacunas que nasceu a Obesity Clinic, um projeto dedicado exclusivamente ao tratamento da obesidade através de uma equipa multidisciplinar especializada. “Temos médicos e uma nutricionista totalmente alinhados, essenciais no tratamento da obesidade. O tratamento não passa apenas por comer menos, mas por comer melhor e de forma personalizada. Ninguém escolhe ter obesidade, mas todos merecem acesso ao tratamento”, explica.

A preocupação estende-se também às gerações mais jovens. “As crianças e os adolescentes, que ainda têm cérebros em desenvolvimento e menor capacidade para lidar com estímulos e tentações, são diariamente expostos a anúncios de opções alimentares pouco saudáveis”, revela.
Perante a proliferação de dietas rápidas e promessas milagrosas nas redes sociais, chama a atenção para o impacto emocional da imagem corporal no doente. “Somos constantemente expostos a corpos idealizados, apresentados em contextos completamente afastados da realidade, o que cria sentimentos de culpa e uma visão irreal do que é considerado ‘perfeito’”.
O combate começa pelo fim do julgamento. “Enquanto continuarmos a julgar as pessoas com obesidade, estaremos a afastá-las do tratamento. E cada pessoa que desiste de procurar ajuda é uma oportunidade perdida para prevenir doença, melhorar qualidade de vida e salvar vidas”, conclui.










