Quando a liderança nasce da complementaridade

Entre o legado familiar e a exigência da advocacia, Ana Gomes Alves acredita que a verdadeira liderança nasce da competência, da colaboração e da capacidade de transformar preconceitos em resultados.

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Na FSA, onde existe uma representação numérica equilibrada entre homens e mulheres, existe esse mesmo equilíbrio na liderança e capacidade de decisão?
O nosso escritório assenta desde a sua fundação, em 1971, numa forte ideia de amizade, responsabilidade e compromisso, entre os seus sócios e destes com os seus clientes. Assim o foi no início com os seus quatro sócios fundadores, um dos quais foi o meu pai que muito me ensinou e influenciou, pela forma séria, responsável e dedicada como sempre encarou a profissão e me transmitiu os seus valores e conhecimentos. Assim o é agora, com quem lhes sucedeu e com os sócios que reforçaram a sociedade, tornando-a progressivamente mais transversal e completa.

Assumimo-nos como uma família: os advogados atuais e o legado nunca esquecido daqueles que fazem parte da nossa história. É profundamente motivador trabalhar num ambiente com este vínculo entre todos e com a nossa história comum. Estamos já na terceira geração de advogados e a questão de género é, e assim continuará a ser certamente, uma questão meramente biológica. Todos temos características pessoais diferentes, sendo homens ou mulheres, todos temos campos do Direito onde estamos mais especializados e é essa ideia de complementaridade que traduz a liderança, não centrada em alguém especificamente, mas na ideia de grupo que se complementa.

O seu percurso tem sido desenvolvido em áreas do Direito marcadas pela exigência técnica e pela responsabilidade das decisões. Que características pessoais acredita que a moldaram enquanto advogada?
Um forte sentido de justiça, de ajuda aos outros, que, julgo, me caracteriza desde tenra idade, o desafio e o gosto de trabalhar em equipa. Sempre me incomodou a injustiça. A minha filha mais velha, hoje também membro da sociedade, quando era pequenina e me visitava a mim e ao avô, ainda nas antigas instalações, chegou a comentar com uma colega minha, que insistia para ela vir a ser no futuro advogada, que nunca o seria pois não queria lidar com os problemas dos outros. Ironicamente hoje faz parte da equipa. É uma profissão dura exatamente pelas razões que ela, ainda tão nova, apontou, mas extremamente recompensadora quando conseguimos ajudar quem da nossa ajuda necessita e repor a justiça.

Há quem defenda que as mulheres continuam a ser confrontadas com expectativas contraditórias: espera-se firmeza nas decisões, mas, ao mesmo tempo, uma postura mais conciliadora. Alguma vez sentiu essa dualidade ao longo da sua carreira?
Sou, por natureza, uma pessoa conciliadora, mas o ser conciliador não significa que se seja menos firme ou seguro na tomada de decisões. O problema da afirmação da mulher na sociedade, em particular em profissões muito exigentes como a nossa, não é algo que se resolva por decreto, mas pelo exemplo. Há uma ideia construída ao longo de séculos de domínio masculino, de que a mulher é frágil, volúvel e por isso menos capaz de aguentar a pressão, a responsabilidade, e isso tem ainda inércia, mesmo em sociedades que se dizem evoluídas. Mas aqui vamos a um ponto distintivo: a resiliência feminina. O aguentar o preconceito, mesmo quando este é dissimulado, e vencê-lo pela prática. Como a colaboração entre os colegas nas suas diferentes especializações jurídicas é importante, também a diferença entre os géneros é uma vantagem pela complementaridade que aporta. Assim o é na vida, ou num escritório de advogados como o nosso.