Quando a vontade de ter tempo para a família se transforma na oportunidade de um negócio próprio

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Quando comecei a trabalhar, há quase 15 anos atrás, ainda era bem visto o “sair tarde”. Digo ainda, porque quero acreditar que nesta década e meia que passou, as coisas mudaram.

Depois de trabalhar uns anos em consultoria entre Lisboa e Luanda, fui para Londres. Aí, o registo era bem diferente. Às cinco e meia da tarde, eu era muitas vezes a última a sair. E se por acaso ficava até mais tarde, perguntavam-me o que se passava – ou tinha trabalho a mais, ou não estava a ser eficiente!

Voltei para Lisboa grávida. Com um filho, as prioridades alteram-se (as minhas, pelo menos!): queria um emprego que me permitisse ir buscá-lo cedo à escola e passar tempo de qualidade com ele. “Impossível”, diziam-me. “Vais ter que arranjar quem o vá buscar à escola, não há empregos desses em Lisboa”.

Sou teimosa. Procurei, procurei, procurei. Algumas empresas davam abertura para isso – horários flexíveis, chamavam-lhes.

Infelizmente (ou felizmente), nunca cheguei a saber se esses “horários flexíveis” eram uma realidade ou (mais uma) forma de algumas empresas explorarem os seus recursos. Um problema de saúde meteu-se entre mim e a procura do emprego que eu almejava, e tive que deixar essa busca para travar uma batalha maior.

Durante esse processo, a ideia surgiu. Eu, que nunca me imaginara empreendedora, tinha um potencial negócio em mãos. Não estava completamente consciente disso na altura, mas criar o meu negócio permitiu-me também criar o meu emprego, aquele que eu não conseguia encontrar.

Com um filho e um negócio próprio veio o desafio da gestão do tempo. E para mim, o desafio era acrescido – tinha consultas e exames regulares, e o meu corpo estava a recuperar de tratamentos violentos. Esta parte sempre foi, e ainda hoje é, a mais difícil de gerir.

Na vertente profissional, os desafios eram mais que muitos – afinal de contas, estava a criar um negócio, ainda para mais numa área que não era a minha. O meu negócio cresceu mais devagar do que se eu tivesse mais tempo para me dedicar a ele, mas essa foi uma decisão consciente.

Comecei a aprender a gerir as minhas prioridades, mais do que a minha to do list. E para mim, o tempo para a minha família sempre foi uma prioridade – foi até parte da motivação para criar um negócio próprio.

A flexibilidade também foi importante. Em alturas críticas, cheguei a trabalhar mais do que quando estava em consultoria aos 20 e poucos anos – mas, mesmo nessas alturas, reservava uma boa parte do dia para o meu filho. Ou trabalhava até tarde, depois de ele adormecer, ou me levantava mais cedo (estou a escrever este artigo de madrugada, antes de ele acordar).

A verdade é que, com o passar do tempo, reparei que não era a única mãe a ir buscar o filho cedo à escola – entenda-se, às 4 ou 5 da tarde. Havia alguns avós, empregadas, mas também muitos pais e mães, mais do que eu estaria à espera. Não haviam de estar todos desempregados, pensei. Talvez trabalhassem por conta própria? Alguns – mas outros tantos trabalhavam por conta de outrem.

Ter tempo para a família e uma vida profissional activa envolve uma boa dose de gestão familiar. conheço vários casos, por exemplo, em que um elemento do casal começa a trabalhar mais cedo, o outro leva os filhos à escola, e à tarde trocam – o que começou mais cedo vai buscar os filhos, o outro fica a trabalhar até mais tarde.

A verdade é esta – de uma forma ou de outra, estes empregos existem. Aqueles que nos permitem combinar o lado profissional e familiar. Depende muito das empresas, claro – mas também depende muito de cada um de nós.

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