Reabilitar “além do óbvio”

A reabilitação urbana deve respeitar a história dos edifícios, enquanto lhes recupera o vigor estrutural e a vida interior, com traços de contemporaneidade e conforto. A sustentabilidade é, por isso, uma ideia estruturante de todos os projetos da responsabilidade do arquiteto Luís Francisco, Chief Development Officer na AM48. Centrando a sua abordagem no lema “além do óbvio”, todos os projetos refletem inconformismo e unicidade, tal esta sua entrevista, na primeira pessoa, demonstra.

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Luís Francisco, arquiteto e CDO

Um dos fatores característicos d a organização da AM48 é a sua capacidade de recorrer a profissionais especializados nas mais variadas áreas técnicas, de acordo com as necessidades de cada projeto. Essa leveza estrutural da empresa é uma vantagem que permite um envolvimento em projetos absolutamente distintos?

Para a AM48 não existem dois projetos iguais. Cada projeto é único e corresponde a uma solução específica para um programa determinado/ concebido para um terreno ou edifício em concreto. Neste pressuposto, aquilo que nos faz sentido é termos uma estrutura interna que abranja as áreas core e seja capaz de construir equipas projeto a projeto, de acordo com o conceito e os objetivos definidos.

A sustentabilidade é, para a AM48, algo que implica a própria noção de edifício. Este deve ser como que um organismo em comunicação permanente com o ambiente em que se insere. Como concretizam isto em cada projeto desenvolvido?

A sustentabilidade é para nós uma forma de estar, um posicionamento consciente perante o meio onde nos inserimos e reflexo da consciência social da ação da empresa. Nessa medida, optamos por incutir este posicionamento e esta visão de uma forma estruturante, desde início (aquando da escolha dos ativos a desenvolver, tendo em conta o seu enquadramento territorial), prosseguindo no conceito a desenvolver, no programa base, na escolha dos players, na interação com as entidades e por fim na sua materialização.

A noção de inovação passa pela utilização de novos materiais, de estudos sobre as características do espaço onde o edifício será inserido e pela tentativa de criar, cada vez mais, edifícios com melhor desempenho ambiental, social e económico. Que exemplos gostaria de destacar, que cumprem exatamente estes critérios?

O lema da AM48 é “além do óbvio”. Este lema assenta numa posição antagónica ao seguidismo e profundamente inconformista. Este inconformismo impele-nos a ter uma abordagem específica e única, projeto a projeto. É este posicionamento que nos levou a adquirir o edifício onde viríamos a desenvolver o Ópera Lx (um empreendimento de reabilitação) reintroduzindo a habitação em plena Avenida da Liberdade, num momento em que esta artéria se encontrava totalmente terceirizada; a olhar para duas parcelas de terreno com duas moradias em plena Avenida António Augusto Aguiar e desenvolver um edifício residencial de raiz – o Focus Lx, com os mais elevados standards e com uma oferta sem igual em pleno centro de Lisboa (condomínio com spa, ginásio, banho turco, jacuzzi, jardim e piscina exterior, com todos os estacionamentos em box, saunas nos apartamentos de maiores tipologias e uma penthouse no último piso); a conferir a um edifício situado em plena Praça dos Restauradores a dignidade e visibilidade que nunca teve, através de uma profunda, complexa e desafiante obra de reabilitação – o caso do The Boulevard – e mais recentemente com a introdução de um programa habitacional em plena Avenida 24 de Julho, através do PROMENADE, com 40 apartamentos, distribuídos por tipologias que vão desde os T01 a quatro penthouses (T03, T04, T5 e T06 +1, todas com box, elevador dedicado ou exclusivo e cobertura em terraço com piscina), com uma exposição única sobre a cidade de Lisboa, que abarca desde a colina de Santa Catarina ao esplendor do estuário do Tejo.

É possível concretizar os vossos desígnios – mencionados anteriormente – e ainda assim efetuar uma reabilitação de um edifício que respeite o seu tempo e a história?

Os empreendimentos Ópera Lx na Avenida da Liberdade (AVL) e o The Boulevard em plena Praça dos Restauradores, são a prova disso mesmo. O Ópera Lx tirando partido da sua dupla frente (Av. da Liberdade e Rua Rodrigues Sampaio) corresponde a uma intervenção que combina a reabilitação da fachada do edifício que ocupa a frente da AVL com a construção de raiz de um novo bloco com frente para a Rua Rodrigues Sampaio, encontrando-se ambos os blocos interligados por três pisos em cave destinados a estacionamento e um piso de cave das lojas. Por sua vez, ocupando uma posição única na Praça dos Restauradores, delimitado pelo Hotel Avenida Palace (momento nacional), a estação de caminho de ferro do Rossio, pelo Hotel Éden (monumento nacional) e ainda para estação de metro dos Restauradores, o The Boulevard corresponde a um empreendimento de reabilitação com a preservação das empenas laterais e preservação e valorização da fachada principal através da reintrodução da métrica de vãos (ao nível do embasamento/ das lojas) perdida pelas sucessivas alterações que este edifício foi sofrendo ao longo da sua vida. A reabilitação do edifício preexistente fundeou uma abordagem totalmente contemporânea, onde a partir dos valores patrimoniais em presença, é desenvolvida uma abordagem crítica que se consubstancia pela substituição de três pequenos e insalubres saguões por um único de dimensões generosas, onde o muro a tardoz adquire uma nova função enquanto elemento condutor de luz, onde um elevador panorâmico ladeado por duas escadas metálicas ocupa posição central no saguão e, sobretudo, são criadas as condições necessárias ao desenvolvimento de um programa habitacional que combina o conforto e os requisitos da contemporaneidade com o valor e a herança da história.

Como antecipa o ano de 2021 para este setor?

Encaramos o ano de 2021 com otimismo moderado, assente na convicção de que continuam a existir todas as condições para o setor recuperar uma posição equivalente ao antes da pandemia, sendo para tal fundamental a consciência global de que temos um longo e desafiante caminho pela frente, onde as medidas públicas a adotar para a recuperação da economia ocupam um papel determinante.

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