O que a levou a fundar a sua própria empresa?
Ter sido mãe, pegar num carrinho de bebé e perceber que a cidade não estava preparada para a minha nova condição de mobilidade. As cidades estavam repletas de barreiras urbanísticas e arquitetónicas. Não tinham passeios e, se os tinham, eram reduzidos e sem sistemas de continuidade; tinham sinais de trânsito e mobiliário urbano em cima dos passeios; os pavimentos não eram seguros nem confortáveis. Logo percebi que o desenho da cidade não era inclusivo.
Assim, saio da Câmara de Matosinhos, onde era técnica, e tento replicar essa preocupação pelo chão da cidade de outras cidades.
É assim que surge a MPT, uma empresa de planeamento e gestão da mobilidade, com uma visão absolutamente inovadora, que incidiu essencialmente na procura da qualidade de vida das pessoas e na relação destas com os
lugares. E creio que ser engenheira e ser mulher foi decisivo para a sua fundação.
“Nas grandes cidades, onde o espaço é escasso, é
urgente articular redes de transportes públicos com
modos suaves — andar a pé e de bicicleta”.
Ao longo destes mais de 20 anos de atividade, como se alterou o mercado, na sua área de atividade?
A MPT foi pioneira no desenho inclusivo, num percurso exigente, mas movido por paixão e por uma missão humanista. Numa área marcada por infraestruturas e betão, tivemos de mostrar — a técnicos, autarcas e cidadãos
— que as cidades só cumprem a sua função quando são para todos. E que, quando planeamos, ninguém pode ficar para trás. Iniciámos pela aplicação rigorosa da legislação das acessibilidades, mas percebemos que era preciso ir além da rampa e do degrau: era necessária uma visão mais holística e integrada. Assim, evoluímos para o planeamento urbano integrado, com os primeiros Planos de Mobilidade Urbana Sustentável em Portugal.
Mais tarde, com arquitetos, criámos uma abordagem de desenho urbano que integra acessibilidades, mobilidade, arquitetura e desenho universal. Através do projeto urbano, provámos que é possível mudar o chão das cidades, tornando-as mais inclusivas e também mais belas. Hoje, numa nova fase, desenhamos cidades saudáveis, conscientes da urgência climática e social.
“A MPT foi pioneira no desenho inclusivo,
num percurso exigente, mas movido
por paixão e por uma missão humanista”.
Como caracteriza a sua liderança? Ela contribuiu para a sua evolução pessoal e profissional, simultaneamente? E ser mulher tornou o percurso mais difícil?
A minha liderança foi sempre natural: sendo a única sócia, assumi todas as decisões, com liberdade e responsabilidade. Gosto de aprender com os melhores e de mergulhar em todas as áreas, do planeamento à gestão financeira ou comercial. Gosto de fazer tudo. Ser mulher nunca foi um entrave — mesmo sendo, muitas vezes, a
única à mesa. Pelo contrário: trouxe identidade, detalhe e afeto. O toque feminino está em tudo, da forma como apresentamos projetos à maneira como cuidamos das cidades como se fossem a nossa casa. Liderar com empatia e
visão foi, e é, a força que molda a MPT.
A MPT é uma empresa de planeamento e gestão da mobilidade. Quais os maiores desafios que a mobilidade urbana enfrenta e de que forma a MPT prepara esse futuro?
Na minha ótica, o maior desafio está na mudança cultural. Técnicos habilitados existem, mas a resistência das pessoas às transformações urbanas é profunda. É aqui que a MPT tem um papel central. Para além do planeamento e do projeto, investimos intensamente na transformação de mentalidades. Desenvolvemos formação e ações de sensibilização por todo o país, mantemos linhas de investigação com universidades, organizamos eventos, criamos suportes de comunicação e publicações de referência.
Esta abordagem integrada é fundamental para impulsionar uma nova cultura de mobilidade, mais consciente, sustentável e inclusiva.
“É assim que lidero esta empresa:
com coragem, paixão e um olhar
feminino que não teme o
detalhe — antes, o valoriza”.
As bicicletas e outros meios de transporte, nomeadamente os públicos, são uma solução verdadeira para as dificuldades de mobilidade nas cidades?
As cidades estão cada vez mais conscientes da sua responsabilidade. Descarbonizar e humanizar exige reduzir o uso do automóvel e promover modos de mobilidade mais sustentáveis. Nas grandes cidades, onde o espaço é escasso, é urgente articular redes de transportes públicos com modos suaves — andar a pé e de bicicleta. Falta apenas planear e integrar o sistema. E, sobretudo, comunicar com clareza aos cidadãos.
Como se caracteriza, em contexto desta liderança feminina, no percurso que construiu?
Apresento-me, no fundo, como uma mulher realizadora de sonhos. Cada projeto tem a sua função e nenhum se repete. As cores, a pátine da cidade, a modelação do território, a paisagem e o respeito pela traça da arquitetura desenharão de forma única o lugar. Tudo tem de ser desenhado com delicadeza, porque a cidade é feita de afetos que a história nos faz chegar. É assim que lidero esta empresa: com coragem, paixão e um olhar feminino que não teme o detalhe — antes, o valoriza. O que diferencia os nossos projetos é essa íntima relação entre a escala urbana e a escala humana. E nisso, ser mulher faz toda a diferença.









