“Ser mulher não é um entrave para liderar – traz identidade, detalhe e afeto”

Paula Teles vem de uma família habituada a lutar para vencer e o empreendedorismo está-lhe no ADN. Gosta do ritmo acelerado dos dias, de idealizar e concretizar projetos, e de abraçar desafios que, à primeira vista, parecem impossíveis. Assume, com inovação, o papel de liderança da Mpt®, desenhando cidades através da mobilidade urbana. Com uma visão pioneira em Portugal, (re)pensou a mobilidade urbana inclusiva e tornou-se Consultora Autárquica, colaborando com diversas entidades do Governo Português, enquanto leciona em várias universidades. Apaixonada pela arte de dar qualidade ao ambiente urbano das cidades como se de um filme se tratasse, Paula Teles revê-se como uma realizadora de projetos — determinada, resiliente e sempre pronta para pintar cidades.

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O que a levou a fundar a sua própria empresa?

Ter sido mãe, pegar num carrinho de bebé e perceber que a cidade não estava preparada para a minha nova condição de mobilidade. As cidades estavam repletas de barreiras urbanísticas e arquitetónicas. Não tinham passeios e, se os tinham, eram reduzidos e sem sistemas de continuidade; tinham sinais de trânsito e mobiliário urbano em cima dos passeios; os pavimentos não eram seguros nem confortáveis. Logo percebi que o desenho da cidade não era inclusivo.
Assim, saio da Câmara de Matosinhos, onde era técnica, e tento replicar essa preocupação pelo chão da cidade de outras cidades.
É assim que surge a MPT, uma empresa de planeamento e gestão da mobilidade, com uma visão absolutamente inovadora, que incidiu essencialmente na procura da qualidade de vida das pessoas e na relação destas com os
lugares. E creio que ser engenheira e ser mulher foi decisivo para a sua fundação.

Ao longo destes mais de 20 anos de atividade, como se alterou o mercado, na sua área de atividade?

A MPT foi pioneira no desenho inclusivo, num percurso exigente, mas movido por paixão e por uma missão humanista. Numa área marcada por infraestruturas e betão, tivemos de mostrar — a técnicos, autarcas e cidadãos
— que as cidades só cumprem a sua função quando são para todos. E que, quando planeamos, ninguém pode ficar para trás. Iniciámos pela aplicação rigorosa da legislação das acessibilidades, mas percebemos que era preciso ir além da rampa e do degrau: era necessária uma visão mais holística e integrada. Assim, evoluímos para o planeamento urbano integrado, com os primeiros Planos de Mobilidade Urbana Sustentável em Portugal.
Mais tarde, com arquitetos, criámos uma abordagem de desenho urbano que integra acessibilidades, mobilidade, arquitetura e desenho universal. Através do projeto urbano, provámos que é possível mudar o chão das cidades, tornando-as mais inclusivas e também mais belas. Hoje, numa nova fase, desenhamos cidades saudáveis, conscientes da urgência climática e social.

Como caracteriza a sua liderança? Ela contribuiu para a sua evolução pessoal e profissional, simultaneamente? E ser mulher tornou o percurso mais difícil?

A minha liderança foi sempre natural: sendo a única sócia, assumi todas as decisões, com liberdade e responsabilidade. Gosto de aprender com os melhores e de mergulhar em todas as áreas, do planeamento à gestão financeira ou comercial. Gosto de fazer tudo. Ser mulher nunca foi um entrave — mesmo sendo, muitas vezes, a
única à mesa. Pelo contrário: trouxe identidade, detalhe e afeto. O toque feminino está em tudo, da forma como apresentamos projetos à maneira como cuidamos das cidades como se fossem a nossa casa. Liderar com empatia e
visão foi, e é, a força que molda a MPT.

A MPT é uma empresa de planeamento e gestão da mobilidade. Quais os maiores desafios que a mobilidade urbana enfrenta e de que forma a MPT prepara esse futuro?

Na minha ótica, o maior desafio está na mudança cultural. Técnicos habilitados existem, mas a resistência das pessoas às transformações urbanas é profunda. É aqui que a MPT tem um papel central. Para além do planeamento e do projeto, investimos intensamente na transformação de mentalidades. Desenvolvemos formação e ações de sensibilização por todo o país, mantemos linhas de investigação com universidades, organizamos eventos, criamos suportes de comunicação e publicações de referência.
Esta abordagem integrada é fundamental para impulsionar uma nova cultura de mobilidade, mais consciente, sustentável e inclusiva.


As bicicletas e outros meios de transporte, nomeadamente os públicos, são uma solução verdadeira para as dificuldades de mobilidade nas cidades?

As cidades estão cada vez mais conscientes da sua responsabilidade. Descarbonizar e humanizar exige reduzir o uso do automóvel e promover modos de mobilidade mais sustentáveis. Nas grandes cidades, onde o espaço é escasso, é urgente articular redes de transportes públicos com modos suaves — andar a pé e de bicicleta. Falta apenas planear e integrar o sistema. E, sobretudo, comunicar com clareza aos cidadãos.

Como se caracteriza, em contexto desta liderança feminina, no percurso que construiu?

Apresento-me, no fundo, como uma mulher realizadora de sonhos. Cada projeto tem a sua função e nenhum se repete. As cores, a pátine da cidade, a modelação do território, a paisagem e o respeito pela traça da arquitetura desenharão de forma única o lugar. Tudo tem de ser desenhado com delicadeza, porque a cidade é feita de afetos que a história nos faz chegar. É assim que lidero esta empresa: com coragem, paixão e um olhar feminino que não teme o detalhe — antes, o valoriza. O que diferencia os nossos projetos é essa íntima relação entre a escala urbana e a escala humana. E nisso, ser mulher faz toda a diferença.