Em Portugal, as mulheres já são maioritárias na advocacia, mas essa representatividade ainda não se traduz proporcionalmente nos lugares de liderança. Onde está hoje o verdadeiro “teto de vidro” e o que é preciso mudar?
O verdadeiro “teto de vidro” já não está no acesso à advocacia, mas nas condições em que é pedido às mulheres que cheguem e permaneçam nos lugares de decisão. A mudança passa por deixar de olhar para a liderança feminina como uma exceção e permitir que competência, ambição e vida pessoal coexistam. Não precisamos de lugares por sermos mulheres; precisamos que ser mulher não seja um obstáculo a conquistá-los.
A advocacia continua associada a disponibilidade permanente, horários exigentes e elevada pressão. É possível construir uma carreira de sucesso sem colocar a vida pessoal em segundo plano? Que mudanças deveriam fazer os escritórios?
Durante muito tempo confundiu-se sucesso com disponibilidade permanente. Hoje acredito que ser uma boa advogada não passa por deixar de existir fora do escritório. Preciso da mulher que existe para além da advogada para regressar ao trabalho mais equilibrada e capaz.
Os escritórios têm de aprender a valorizar resultados, responsabilidade e qualidade, e não uma presença e exaustão. Há prazos que não podem esperar, mas nem tudo pode ser tratado como urgente. Uma carreira sólida também se constrói sabendo estabelecer limites e compreendendo que a nossa vida não se limita à vida profissional.

Depois de uma experiência pessoal difícil, abandonou projetos profissionais em contexto empresarial e criou o seu próprio escritório. O que essa decisão lhe ensinou sobre coragem, liderança e a advogada que queria ser?
Ensinou-me que coragem não é ausência de medo. É avançar apesar dele. Criar um escritório com o meu nome e o meu rosto significou deixar de me esconder atrás de estruturas e assumir integralmente aquilo que queria construir. Percebi que não queria apenas exercer advocacia: queria fazê-lo à minha maneira, com rigor, proximidade e humanidade. A minha maior aprendizagem foi não permitir que os momentos que nos quebram decidam quem vamos ser depois deles.
O seu projeto ultrapassa a prática tradicional, através da proximidade com os clientes, da intervenção na APAVAM e do trabalho pro bono junto de vítimas de violência doméstica. Que impacto gostaria de deixar na sociedade e na advocacia portuguesa?
Gostaria que o meu nome e o meu escritório fossem associados a uma advocacia rigorosa, mas profundamente humana. O trabalho que desenvolvo na APAVAM e o acompanhamento pro bono de vítimas de violência doméstica reforçaram em mim uma convicção: por detrás de cada processo existe uma pessoa. A advocacia não pode perder essa dimensão humana.
Quero continuar a construir um escritório próximo, acessível e atento. Gostaria de mostrar que é possível crescer, inovar e exercer uma advocacia de excelência sem criar distância entre o advogado e a sociedade.










