Transformar cada euro num aliado

Reformar-se antes dos 50 pode parecer um sonho distante para muitos, mas para Paula Costa foi o resultado de hábitos financeiros simples, disciplina e foco absoluto na independência financeira. Especialista em finanças pessoais, dedica-se a ensinar portugueses a sair do endividamento, a dominar o orçamento e a transformar o dinheiro num aliado.

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Que hábitos financeiros lhe permitiram reformar-se antes dos 50 anos e viver dos seus rendimentos?
O fator mais decisivo foi a taxa de poupança. Depois de ter encerrado na miséria o meu negócio em 2010, regressei ao mundo corporativo para assumir posições que me pagavam salários e prémios acima da média. É claro que o valor que se ganha é relevante quando falamos de uma taxa de poupança de 20 a 25%, mas mesmo quando tal esforço é inviável, há hábitos essenciais que permitem poupanças que nunca pensámos conseguir fazer.
O primeiro é viver abaixo das possibilidades, ou seja, manter um estilo de vida que não cresce proporcionalmente ao aumento do rendimento. Sempre gostei de viajar e de jantar em restaurantes ‘da moda’, mas, para não me privar destes pequenos luxos, sempre fui adepta das promoções, das comparações de preços e de planear refeições para vários dias.
Outro hábito é o investimento estratégico e diversificado. Comecei pelos Certificados de Aforro com a ajuda dos meus pais, mantendo-os até ao fim do prazo com ganhos significativos e risco zero. Descobri o trading durante a pandemia, mas perdi muito dinheiro até aprender o funcionamento dos mercados, e mais recentemente investi em imobiliário, aproveitando oportunidades de lançamento. A diversificação entre classes de ativos e níveis de risco é o que permite maximizar rendimentos sem stress excessivo.
Sempre adotei uma mentalidade de dono, tratando cada euro como uma ferramenta de investimento e questionando antes de cada gasto: “Até que ponto esta despesa contribui ou prejudica o meu objetivo final, que é a independência financeira?”.

Com tantos portugueses dependentes do crédito e de vários cartões, qual seria o primeiro passo para quebrar este ciclo de en dividamento?
Quando me tornei empresária também vivi assim, e sei como é difícil quebrar o ciclo. Nos meus webinars explico os métodos mais populares para liquidar dívidas, mas o primeiro passo é sempre fazer um diagnóstico da situação financeira. Muitas pessoas têm medo de consultar o extrato bancário, e entre casais há muitas despesas secretas, como mensalidades de plataformas de jogos, massagens ou jantares com amigos. O método que partilho em todos os cursos baseia-se em três passos. Primeiro: diagnóstico – saber exatamente quanto se deve, a quem e, o mais importante, a taxa de juro efetiva de cada dívida. Segundo, contenção imediata – é imperativo parar de usar sistemas de crédito rotativo ou cartões. Terceiro, renegociação – contactar os credores para tentar reduzir as taxas de juro mais altas antes de iniciar o plano de pagamento.

Considera que a literacia financeira em Portugal está a evoluir? Quais são as principais lacunas e que políticas devem ser implementadas para as resolver?
Nunca se falou tanto em literacia financeira como agora. A informação online está mais acessível, mas nem toda é fiável. Há lacunas nas famílias, onde falar de dinheiro ainda é um tabu maior do que falar de sexo, e muitos pais não dão o exemplo, vivendo num ambiente de consumismo. As lacunas incluem o desconhecimento de conceitos básicos, como inflação, juros compostos ou funcionamento de instrumentos de crédito, levando a que a poupança seja maioritariamente aplicada em depósitos à ordem ou a prazo, que perdem poder de compra devido à inflação e comissões bancárias. As políticas que recomendo passam por educação obrigatória e prática desde o ensino básico, incentivos fiscais simplificados e alargados para poupança, e ações de sensibilização em massa promovidas por instituições como o Banco de Portugal e a CMVM, focadas em tópicos práticos com grande alcance.

Que estratégias recomenda para manter a disciplina e incentivar os seus clientes a poupar de forma consistente?
A mudança de comportamento é o maior desafio. A disciplina não deve depender da força de vontade diária, mas transformar-se em hábito. Recomendo automatizar transferências no dia do pagamento para conta de investimento, construir um fundo de emergência e amortização de dívidas, transformando a poupança numa obrigação. Além disso, é importante ligar o dinheiro a
objetivos concretos: a reforma não é um número, é um futuro sem medo da pobreza; o fundo de emergência não é uma teoria, é paz de espírito em caso de desemprego ou de uma despesa inesperada. Por fim, incentivo à responsabilidade externa, partilhando objetivos com parceiros, amigos ou grupos, pois é mais fácil falhar consigo próprio do que perante outros. Por isso, a participação em webinars e workshops gratuitos ajuda a manter a consistência e disciplina.