Tratar Obesidade: uma nova abordagem para uma velha doença

A experiência da médica Joana Menezes Nunes, especialista em Endocrinologia e Nutrição, é já vasta. Iniciou o seu percurso no Serviço Nacional de Saúde, passando posteriormente para o setor privado, o que culminou, agora, com a abertura de uma clínica em nome próprio. Focada na doença Obesidade, esta profissional de saúde assume que falta ainda muita literacia – quer à população, quer aos profissionais de saúde – sobre o que é verdadeiramente esta doença crónica e como ajudar a população que vive com ela.

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Como foi a experiência de trilhar o seu percurso, iniciando-se no SNS e depois seguindo carreira no setor de saúde privado? Alguma vez percebeu, entre os seus pares, diferenças de tratamento por ser mulher?

Tive o privilégio de fazer toda a minha formação na Faculdade de Medicina da Universidade do Porto e Centro Hospitalar de São João (CHSJ), no Porto. Entrei em 2001 e saí em 2015, já lá vão 10 anos, mas lembro-me bem desse dia e do sentimento agridoce – doce porque estava segura dos cuidados de saúde que queria prestar aos meus doentes (uma consulta completa, personalizada, regida pelo melhor conhecimento científico e de última linha, porém com o tempo necessário que o SNS não me dava, nem as condições para o fazer); agri porque deixei para trás a minha “segunda casa”, uma carreira académica e hospitalar, amigos, alunos e doentes (muitos sonhos que ficaram por realizar). Encontrei no setor privado melhores condições de trabalho e fui muito bem acolhida – o meu Muito Obrigada a todos os que se cruzaram comigo e que de alguma forma me puseram neste caminho, que culmina agora em Setembro/2025, com a abertura da minha própria clínica (Clínica Médica Dr.ª Joana Menezes), agora de novo com o sabor doce de outrora.

Uma clínica focada no tratamento sem estigma de pessoas (crianças e adultos) que vivem com Obesidade, focada na formação e promoção de saúde, na prevenção do risco cardiovascular, no diagnóstico e tratamento atempados de patologias do foro endócrino e sexual (com especial apreço pela saúde da mulher). Por falar nisso, como mulher, nunca senti nenhum tipo de diferença de tratamento, mas também fui Mãe tardiamente, há quatro e há três anos. Confesso que me causa angústia quando a família colide com a profissão e bastante stress quando tenho que “me gerir” como Mãe, Mulher e Médica.

O seu caminho na Medicina é já cheio de conquistas. O que a levou a apostar nestas duas áreas de especialidade – Endocrinologia e Nutrição?

Escolhi Endocrinologia por ser no Porto, no CHSJ, onde queria “crescer” como Médica, mas também acompanhar a minha avó (que ali tinha começado hemodiálise) e porque queria uma especialidade médica que me desse mais tempo para ser Mãe – filha de médicos, familiar de outros médicos, vivi muitas ausências que não queria replicar.

Em Portugal, falta ainda, a seu ver, literacia nutricional à população? O que é possível fazer para alterar esta realidade?

Não sei bem se falta literacia nutricional ou se há excesso de “contrainformação” e “fake news”. O que tenho a certeza é que falta literacia (na população e nos profissionais de saúde) relativamente à Obesidade – não, não
é uma questão de preguiça, de comer menos e mexer-se mais. A obesidade é uma doença, que, em até 70-80% é causada por alterações genéticas e epigenéticas, e os restantes 20-30% têm tantas outras causas tão complexas;
é uma doença crónica, ou seja, para a vida toda, multifatorial, progressiva, que causa mais de 200 outras doenças (é a epidemia do século). Só conseguiremos mudar com informação e formação, livre de estigma e carregada de respeito e empatia.

Quão importante é a prevenção para assegurar menores problemas de saúde no futuro, nomeadamente, por exemplo, no que respeita à obesidade e à diabetes?

A medicina deve ser preventiva e apostar no diagnóstico e tratamento atempados, senão só andamos a correr atrás do prejuízo. Falta promoção de saúde, formação/literacia em saúde, faltam cuidados de saúde com tempo, estratégia e “saúde” deles mesmos, para que possam gerar “saúde” para a população. Falta articulação entre todos os recursos – temos muitos e bons. Falta visão em saúde (há que mudar, a estratégia adotada até agora não tem funcionado,
os números são cada vez mais assustadores).
E falta também qualidade de vida e riqueza educativa/social/cultural que permita gerar uma população mais saudável e feliz.

Acredita que o estigma existente relativo a pessoas que vivem com obesidade impede que muitas delas procurem ajuda e tratamento?

Não só acredito, como está descrito que pessoas que sentiram na pele esse estigma evitam os profissionais de saúde. Logo, faltam aos rastreios, não são diagnosticadas atempadamente e acabamos, mais uma vez, na “gestão de doença” em vez de “prevenção em saúde”. Além disso, as pessoas acabam por acreditar que a culpa é mesmo delas – um exemplo, aquele influencer, Gabriel Freitas, que acreditava que sozinho, com “força de vontade” conseguia tratar a sua obesidade e que morreu tão precocemente aos 37 anos.

É possível, unindo esforços com as entidades estatais, criar melhores condições e serviços para que as pessoas que vivem com obesidade tenham mais acesso a soluções e acompanhamento para o seu caso?

Sim, é possível. Porém, necessitará de uma reforma profunda do SNS (que já está estrangulado para outras doenças, urgências e emergências) tempos de espera, formação de profissionais qualificados, criação de circuitos eficazes entre cuidados de saúde primários/secundários. Cabe ainda ao Ensino fornecer formação rigorosa nesta área. E é necessária a comparticipação do tratamento médico para as pessoas com obesidade – há uns anos criei uma petição neste sentido, mas as pessoas não assinam, penso que por estigma e falta de informação.

Que mensagem deixa a quem está agora a começar uma carreira e pretende, também, conseguir alcançar alguns objetivos profissionais? O que considera mais importante para continuar sempre a crescer profissionalmente?

Constante atualização científica, brio profissional e entrega (sentida) ao próximo, com respeito, empatia e compaixão.