(TROT)inete: uniformes para miúdos e graúdos

Para contar a história da Trotinete Lda., temos de conhecer e conversar com a sua fundadora e administradora, Matilde Vasconcelos (MV). A história pessoal e profissional desta mulher empreendedora, apaixonada pelo design e por aquilo que faz, entrelaça-se com a da empresa que criou em 1992.

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De então para cá, muitas coisas mudaram. A Trotinete começou por ser uma empresa têxtil que desenhava, produzia e comercializava coleções de roupa infantil para a sua marca. MV era, então, uma empresária em início de percurso e nem sempre o caminho foi fácil: “Era muito jovem, tinha já a minha primeira filha, e por isso tive de conciliar a vida familiar com a criação da empresa. Sempre gostei de desafios, e sendo apaixonada por tudo o que diz respeito ao processo criativo e de desenvolvimento do produto, encontrei neste projeto uma forma de manter viva a imaginação, a necessidade de criar e a de projetar o futuro. Hoje posso dizer que me orgulho nisto que já são 27 anos de experiência”.

Matilde Vasconcelos, CEO

MV sempre foi uma defensora da diferenciação, em que as empresas têm de gerar o seu próprio valor, a sua marca própria, criar independência do trabalho a feitio. É ai que se cria valor e faz a diferença. A sua primeira experiência profissional como designer/empresária, foi feita logo após terminar o curso de Design de Calçado, no CFPIC em S. João da Madeira. Não chegou a concluir arquitectura para ir estudar Design e modelação no CFPIC (Academia de Design e Calçado). Terminado o curso, nasceu a primeira filha e passados 6 meses, em conjunto com dois colegas abriu um gabinete de modelação e design de calçado: “Nessa altura, os industriais ou compravam, ou copiavam os modelos que traziam de fora, quase não existiam marcas próprias, e o conceito de designer era praticamente inexistente. A nossa ideia era boa, desenhar coleções para fábricas de calçado que não as tinham. No fundo, fomos pioneiros…“.

Como queria estar mais próximo da sua família, os têxteis surgiram como um novo desafio, mais próximo de casa. MV estava decidida a criar uma marca própria desenhada por si, para crianças.

A primeira coleção começou a ser comercializada no Porto em algumas boutiques de referência: ‘’O sistema inicial era de prontomoda, num registo ‘’porta-à-porta’’, o que obrigava a produzir para stock. Rapidamente compreendi os riscos que corria, nomeadamente de ficar com monos, isto é, produtos não vendidos e acumulados dentro de portas. De modo que na coleção seguinte, optei por alugar um stand numa feira de roupa de criança em Lisboa, a FIL. Foi um sucesso comercial, vendi praticamente para todo o País, despachando muita mercadoria para boutiques. Ainda assim, muito do que fiz, por falta de experiência, envolvia a não cobrança, e muito do que vendi, acabou também por não ser cobrado…’’

um colégio contactou a empresa e propôs que desenhássemos os uniformes escolares

Resiliência e determinação são características-chave em MV, o que lhe permitiu reagir a estes volte-faces, e procuram sempre novos drivers para a empresa e marca.
Durante os dois primeiros anos, a Trotinete vendia as suas coleções para lojas de roupa de criança. Todavia, acabaria por lhe ser proposto um desafio ao qual MV não conseguiu resistir: “Um colégio contactou a empresa e propôs que desenhássemos os uniformes escolares. Era algo inédito, pois no início da década de 90 eram muito poucos os colégios que tinham uniformes. Não era algo instituído, como hoje o é, pelo que o desafio me pareceu super interessante. Além disso, garantia à empresa uma estabilidade financeira que foi absolutamente necessária para a sua sobrevivência”.

A parceria foi um sucesso, volvidos 25 anos, esse colégio ainda recorre à Trotinete sempre que é necessário renovar o stock de uniformes escolares. Prova de que a relação de parceria estabelecida com os clientes é um dos vetores da empresa.

Uma segunda pele

Matilde Vasconcelos sabe exatamente o que procura quando precisa de desenhar um uniforme: ‘’Se pensarmos bem, são as peças que mais vestimos, as que usamos a semana toda. É por isso essencial que com elas nos sintamos bem, tanto pelo conforto como pelo próprio look”.

Se para as crianças essa é a característica principal destas peças, no que respeita aos adultos o cuidado é acrescido pelo Feet, ou seja os modelos tem de ter um excelente corte, para que assentem bem: “Para além da Trotinete, que trabalha os uniformes escolares de crianças, criámos, em 1997, a marca TROT, que comercializa uniformes corporativos para adultos em diferentes áreas de atuação profissional, contemplando os setores da saúde, restauração, segurança militar, polícia e hotelaria, onde somos particularmente fortes. Nesses casos, o colaborador tem de se sentir confortável na sua pele, isso torna-o mais produtivo e eficiente, assim como trabalhar se torna mais agradável. Um uniforme tem de ter essa capacidade de ser intemporal, de se ajustar perfeitamente a quem o veste, como uma segunda pele”.

Para desenhar uniformes para hotelaria, por exemplo, MV tem em conta vários fatores: “Primeiro precisamos de conhecer o conceito do hotel. Depois é necessário compreender quais as funções da pessoa a quem aquele uniforme se destina, e posteriormente ajustá-lo às tendências da época e ao custo de produção. Só depois é que nos podemos dar ao luxo de pensar o design propriamente dito. Ainda assim, faço questão de que as peças estejam o mais atualizadas possível, pois os colaboradores de um hotel são a marca da casa, são as primeiras caras que um cliente vê”.

o colaborador tem de se sentir confortável na sua pele, isso torna-o mais produtivo e eficiente, assim como trabalhar se torna mais agradável

A importância das matérias-primas

O desafio maior de trabalhar nesta área específica do setor têxtil recai na escolha dos materiais a utilizar para a confeção das peças: “Temos de ter em conta que estes uniformes – quer os de criança, quer os de adulto – são alvo de uma utilização intensiva e de lavagens muito frequentes, por isso não podemos escolher qualquer tipo de matéria-prima e acessórios para confecionar. Têm de ser materiais duráveis e resistentes, porque o desgaste é intensivo”. O caderno de encargos que a Trotinete e a TROT disponibilizam aos fornecedores é muito exigente, pois a qualidade que a empresa assegura é alta: “Queremos garantir a qualidade da peça durante dois anos, no entanto o incorrecto manuseamento prejudicará a nossa intenção. Na maioria dos casos até asseguramos uma janela temporal maior, mas tudo depende do tratamento que é dado às peças e da sua utilização mais ou menos frequente”. Tive um cliente, ed. de infância, que utilizou as mesmas duas batas durante 15 anos!”.

Por outro lado, consideram a questão temporal: “Temos casos de colégios, sobretudo, que trabalham connosco há décadas e cujos uniformes são os mesmos desde a primeira vez que os desenhámos. Nunca mais mudaram o design das peças porque de certa forma se
tornaram a própria identidade do cliente, tendo adquirido um valor institucional. Temos também de ser rigorosos na escolha dos materiais mal desenhamos o uniforme, para que possamos assegurar a sua contínua substituição ao longo dos anos”.

A roupa inteligente

Dois dos grandes pilares que sustentam a Trotinete são a inovação e a tecnologia. A empresa criada por MV está constantemente envolvida em projetos, muitos deles resultantes de desafios que colocam à administradora: “Muito recentemente iniciámos um novo projeto numa área têxtil onde a TROT não tem tradição – os Equipamentos de Proteção Individual (EPI’s). Foi-me proposto por um cliente que desafiássemos a nossa capacidade e aliássemos o design com que trabalhávamos à tecnologia de proteção e de segurança individual, tendo assim surgido a gama Hight Gear Tech”.

Matilde Vasconcelos criou um grupo de trabalho dedicado exclusivamente à área da investigação e o resultado foi surpreendente: “Na área da saúde, por exemplo, temos roupa que pode ser lavada a 90 graus, roupa que confere maior proteção contra manchas de sangue ou de outros fluidos, e ainda materiais que conferem maior resistência a determinadas doenças, como é o caso da ébola. É importante garantir oferta de materiais que se alinhem com estas necessidades. Por outro lado, se falarmos em forças de segurança, existem já camisolas cujas malhas são reforçadas para resistir a rasgos, abrasões e outros riscos aos quais estes profissionais são continuamente expostos. Há também um foco grande no equipamento que o próprio fardamento pode incorporar, como é o caso de sistemas de iluminação, aquecimento e GPS. Por fim, aliamos a tecnologia ao design para que os tecidos sejam leves e confortáveis. No fundo, visto de fora, o fardamento aparentará ser absolutamente normal. Obviamente isto acarreta custos acrescidos, e em Portugal, na grande maioria dos casos, o cliente não está ainda tão predisposto a pagar pela qualidade e proteção. Ainda assim, penso que a preocupação das empresas relativamente à segurança dos trabalhadores tem vindo a aumentar, mas ainda falta amadurecer esta perspetiva”.

A par com a internacionalização das suas marcas, a Trotinete Lda. esteve presente na maior e mais conceituada feira de EPI’s, a A+A, e na maior feira de material hospitalar, a MEDICA, ambas em Dusseldorf: “Faz sentido estarmos presentes pois o mercado europeu está mais maduro e adere melhor a determinados produtos que temos para oferecer, sobretudo no que respeita ao fardamento inteligente”. Gostamos de inovar e de fazer diferente”. Os pijamas weaRX anti escaras, especialmente desenvolvidos a pensar nos doentes acamados, são o exemplo máximo da tecnologia aplicada à roupa: “Trata-se de um produto novo, concebido para não ter de ser despido sempre que o doente tem de ser lavado ou tratado, permitindo- lhe conservar a sua dignidade. Para além disso, as propriedades intrínsecas dos materiais conferem vantagens terapêuticas, ajudando, por exemplo, a circulação sanguínea, e as suas características mecânicas conferem-lhes respirabilidade e um toque mais macio, diminuindo assim a fricção na pele, e consequentemente o risco de escaras“.

Uniformes eco-friendly

Sempre na vanguarda da inovação e com um espírito de “fazer mais e melhor” sempre presente, Matilde Vasconcelos considera que, enquanto empresária, pode também ser embaixadora de alguns valores fundamentais – um deles é a sustentabilidade: ‘’Já há vários anos que fazemos a nossa própria reciclagem de lixos, no sentido de reaproveitarmos excedentes têxteis para a criação de fibras novas. Estamos também a estudar uma forma de acabarmos com as embalagens plásticas de transporte e acondicionamento dos uniformes, para darmos início ao uso de materiais feitos com cartão reciclado, mas queremos ir ainda mais longe’’.

A melhoria contínua de produtos e processos de fabrico são uma constante em termos da gestão empresarial, a par com a implementação de boas práticas de sustentabilidade: ‘‘Está previsto para o início do próximo ano substituirmos o embalamento em sacos de plástico, para o passarmos a fazer com papel reciclado. Há um esforço crescente no sentido de manter os princípios de sustentabilidade da empresa, mesmo que isso acarrete maiores custos’’.

Industria 4.0

O têxtil é um dos setores que lidera a Indústria 4.0. Crescentemente, a metodologia de processos tradicionais de produção está a interagir com uma nova e moderna tecnologia da informação (TI) e comunicação. Nelas, estão envolvidos o uso de linhas de montagem e produtos ajustados ao longo do processo de fabricação, nas quais unidades em diversos lugares trocam, simultaneamente, informações sobre compras e stocks. Em resumo, trabalhadores, máquinas, produtos e matérias-primas se relacionam tão naturalmente. Neste âmbito a empresa tem vindo a transformar-se numa empresa inteligente, tendo como foco a evolução tecnologia, e a pegada digital, como exemplo, a criação de plataformas de e-commerce. Tem também implementado o sistema Fashion On Demand: “Automatiza a cadeia de fornecimento proporcionando à empresa a rapidez e agilidade que a costumização de vestuário requer”, afirma.

Fazer mais

A Trotinete é uma empresa dinâmica e cujo desígnio é fazer sempre mais e melhor “conseguiu reinventar-se com base em novos e mais valorizados drives, como o design, a inovação tecnológica e o serviço, tornando-se cada vez mais internacional e competitiva, especialmente nos segmentos mais exigentes do mercado. Além disso, sentir que os clientes confiam no nosso trabalho é muito importante. O sucesso de uma empresa vai muito para além da gestão financeira. Uma empresa de sucesso não é só aquela que se sabe reinventar e inovar, mas também a que se mantém resiliente e perseverante perante os mais variados desafios. É preciso sermos apaixonados pelo que fazemos e, nós, na Trotinete, somos!”.

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