O regresso às aulas coloca desafios acrescidos aos pais? Como recomenda gerir esta pressão?
Setembro muda a rotina das crianças e exige reorganização da família. Os pais gerem horários, expectativas e a própria ansiedade, muitas vezes ainda a recuperar do cansaço do verão.
Costumo dizer para não tentarem que a primeira semana corra na perfeição. As rotinas ajustam-se ao longo de duas ou três semanas, e essa margem tira muita pressão. Boa parte do peso de setembro vem daquilo que exigimos de nós próprios enquanto pais.
Quando é que a preocupação com o sucesso e felicidade dos filhos se transforma em pressão excessiva? Corremos o risco de projetar neles as nossas expectativas e ansiedades?
A preocupação é saudável quando serve o bem-estar da criança. Passa a ser pressão quando o resultado importa mais do que a experiência dela. Em setembro, muitos pais dizem que o filho “não se esforça” e, ao explorarmos, quase sempre há outra coisa: medo de falhar, uma dificuldade não identificada ou uma criança que se sente constantemente avaliada. Um sinal prático é perceber se, ao fim do dia, a primeira pergunta é sobre a nota ou sobre como se sentiu. Projetamos nos filhos aquilo que não resolvemos em nós, por isso, vale sempre a pena perguntar se esta expectativa é sobre ele ou sobre nós.
A ansiedade dos pais perante a escola, as notas ou o futuro pode ser transmitida aos filhos?
As crianças aprendem mais com o que veem em nós do que com o que lhes dizemos. Um pai com corpo tenso perante os testes comunica ansiedade sem dizer uma palavra. A criança capta o estado emocional do adulto muito antes de perceber o motivo. Não é preciso verbalizar a preocupação para ela passar. Em consulta, trabalhar com os pais muda tantas vezes o quadro da criança sem mexer em mais nada.
“As crianças aprendem mais com o que veem em nós do que com o que lhes dizemos. Um pai com corpo tenso perante os testes comunica ansiedade sem dizer uma palavra”
Que sinais indicam que o cansaço dos pais exige acompanhamento psicológico?
Há diferença entre estar cansado e estar esgotado. O cansaço melhora com descanso, o esgotamento não. É importante estar atento a irritabilidade persistente, perda de gosto por coisas de que se gostava, dificuldade em desligar ou sensação de estar sempre a correr atrás do prejuízo. Quando começa a afetar a relação com os filhos ou com o companheiro, é altura de procurar apoio. Muitas vezes, é um acompanhamento breve, focado em perceber o que consume energia e recuperar descanso e limites. Não é fraqueza, é manutenção.
Que conselho deixa aos pais para um ano letivo mais equilibrado, protegendo a saúde mental dos filhos e a sua própria?
Tratem o vosso bem-estar como parte do trabalho e não como aquilo que sobra no fim. Significa dormir o suficiente, ter pequenos espaços vossos e aceitar que não vão conseguir fazer tudo bem. Se ficasse só uma coisa desta conversa, seria esta: escolham quinze minutos do dia para estar com o vosso filho sem escola à mistura. Sem perguntar por notas ou trabalhos de casa. É aí que eles falam e percebemos como está a correr o ano.










