“A Madeira tem uma arquitetura desafiante e única”

A 1 de julho comemora-se o “Dia da Região Autónoma da Madeira e das Comunidades Madeirenses”. Dois dias depois, assinala-se também o Dia Nacional do Arquiteto. A Ordem dos Arquitetos, secção regional da Madeira, destacou o papel do arquiteto enquanto agente caracterizador do território e lembrou que a Arquitetura também pode ser utilizada como motivo turístico e dinamizador da região.

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Enquanto Presidente da Ordem dos Arquitetos, secção regional da Madeira, que reflexão inicial lhe parece indicada fazer sobre a Madeira, a sua comunidade e o espaço e importância que a Arquitetura ocupa neste arquipélago?

A Arquitetura na Madeira é a história da adaptação e evolução de um povo que sempre lutou para amenizar as agruras de um território cheio de personalidade, procurando tirar proveito da luz e água abundante, esculpindo na rocha o seu habitat. A comemoração do Dia da Região e das suas Comunidades personifica esta dicotomia do ilhéu que precisa do mar como horizonte, mas também precisa de sair, para depois voltar. E depois, também existe a ilha dentro da ilha. No dia 3 de julho comemora-se o Dia Nacional do Arquiteto – o principal agente caracterizador de um território – e com o propósito de consciencializar para a
complexa e desafiante tarefa de produzir arquitetura numa região ultraperiférica, a SRMAD
deseja cada vez mais promover o debate e reflexão sobre esta realidade através de várias iniciativas, como será o seminário “A Arquitetura nas Ilhas”, em parceria com a SRAZO, que versará sobre esta temática.

Quais as características particulares desta região, no que respeita à arquitetura da mesma, que importa destacar, dar a conhecer e preservar?

O arquipélago da Madeira, com a sua geomorfologia e clima muito particulares, conduz na sua especificidade a ação do homem sobre o território, dando origem primeiramente a uma
arquitetura intuitiva e vernacular, de dimensões modestas, em que os materiais de construção são muito simples, evoluindo para outras intervenções mais audazes e ambiciosas, ao longo dos tempos, desde a arquitetura quinhentista, passando pelo desenvolvimento das Quintas Madeirenses, mais tarde ligadas ao primeiro turismo de saúde, evoluindo pelo rico movimento Moderno e Pós-Moderno, até à contemporaneidade, não esquecendo a importância de uma organização espacial mais cuidada, com o desenvolvimento do urbanismo.

Quais os desafios que esta arquitetura enfrenta?

Os maiores desafios da atualidade são o galopante preço da construção, devido ao aumento do custo das matérias-primas e dos transportes para a região. Acresce o tempo de tramitação processual dos projetos e toda a burocracia relacionada que não promove a captação de investimento no arquipélago, para a necessária e urgente recuperação de um importante parque imobiliário. Os arquitetos precisam de ver o seu trabalho valorizado uma vez que assumem cada vez mais responsabilidade a desenvolver ou a analisar projetos, necessitam de continuamente estarem atualizados e de fazerem formações. Para tal é necessário investimento pessoal e a situação atual de concorrência desleal entre a classe tem vindo a
dificultar o exercício da profissão.

Que análise faz da Madeira e seu espólio arquitetónico, que possa ser interessante, inclusivamente, transformar num determinado tipo de turismo, para amantes de Arquitetura?

A SRMAD tem estado a alertar para o facto de que há um crescente número de interessados que visita a região para ver obras de arquitetura, pelo que fará todo o sentido incentivar este novo tipo de turismo. Dentro desse espírito, a SRMAD lança em breve um roteiro arquitetónico, o Mapa de Rui Goes Ferreira, e certamente que outros se seguirão. Estão também a ser produzidos os Guias da Arquitetura do Séc. XIX e Séc. XXI (o Guia do Séc. XX já existe e tem muita procura).

Em caso de não se dinamizar para o turismo, que outra aposta se poderá fazer para destacar e dar a conhecer a arquitetura da Madeira?

A SRMAD lança no início de julho a 2ª edição do Prémio de Arquitetura da Madeira e Porto Santo (PAMPS) que este ano versará sobre Reabilitação. Após o sucesso da edição do ano passado, contamos com a presença e o entusiasmo dos nossos membros para este concurso que visa destacar o que de melhor se constrói e reabilita no arquipélago. Neste âmbito, todas as obras que concorrem serão expostas, e em parceria com o Governo Regional através da Secretaria do Turismo e Cultura, será lançado um catálogo bianual com a edição de 2021 de obra nova e de 2022 com obra de requalificação, dando a conhecer o nosso património arquitetónico.

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