“A procura de tecnologia em África está a aumentar”

Luís Rego é o diretor regional para os países africanos de Língua Portuguesa da Axiz, uma empresa que concebe e comercializa soluções digitais e tem como principal mercado o continente africano. O impacto pandémico e as consequentes mudanças no mercado de trabalho levaram à valorização da tecnologia, por parte de muitas empresas, mas Luís Rego explica que os desafios tecnológicos em África são diferentes, na sua conceção, daqueles existentes noutras geografias.

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A quando da nossa última entrevista, a Axiz posicionava-se como uma empresa de soluções tecnológicas, essencialmente focada no mercado africano. Após um ano de pandemia e um 2021 em que as empresas puderam voltar ao trabalho de forma mais regular, que análise faz do impacto da tecnologia no contínuo funcionamento das empresas?

É preciso notar que em Moçambique os impactos decorrentes da pandemia Covid-19 e das medidas de mitigação associadas foram sentidos de forma diferente – e com timings diferentes – do que ocorreu em muitos países. E, por isso, também nos mercados africanos os desafios a resolver foram diferentes. As grandes empresas com filiais em mercados africanos implementaram o teletrabalho e os mesmos modelos de trabalho, reunião e tomada de decisão que as filiais europeias, asiáticas e americanas. Em muitos casos persistem até hoje estes mesmos modelos, reflexo da mudança verificada em muitas grandes empresas, onde os espaços de trabalho mudaram do escritório para casa ou para outros ambientes, aproveitando de forma plena a tecnologia e a disponibilidade de comunicações de banda larga. Mas, em muitos mercados africanos, as PME não tinham e ainda hoje não têm acesso a essas facilidades com a mesma qualidade. A Covid-19 impactou estas empresas de forma mais “tradicional”, na redução das oportunidades de negócio, das vendas e dos cash-flows. Mas, graças às tecnologias de comunicação – muitas empresas conseguiram manter os seus quadros mais qualificados – e mais caros – a produzir, e por isso conseguiram evitar despedimentos em massa da mão de obra mais qualificada.

Quais as soluções tecnológicas às quais as empresas mais recorreram, para assegurar esse mesmo funcionamento?

As nações africanas usaram as tecnologias de informação e comunicação para apoio em áreas desde o teletrabalho, à educação e saúde, para fins tão diversos desde o trabalho à distância até a técnicas inovadoras para gerir pacientes, monitorizar casos e divulgar informações para combater a propagação da Covid-19. Mas muitas outras aplicações de tecnologia floresceram durante a pandemia. Os pagamentos eletrónicos via POS e via internet, a utilização de dispositivos automatizados de disponibilização de bens (desde alimentos a sabonete), as tecnologias de diagnóstico médico (desde sensores térmicos até à telemedicina e geolocalização GPS de pacientes), as plataformas de software destinadas à educação (e-learning) ou ao comércio eletrónico (e-commerce), todas estas áreas tiveram um forte impulso durante a pandemia e, esperadamente, continuarão a aproveitar o momentum criado para alavancar o seu crescimento futuro.

África é um continente ainda com uma grande diferença entre a oferta e a procura de tecnologia. Essa diferença está, atualmente, mais esbatida ou ainda existe trabalho a fazer nessa questão?

Em África a procura de tecnologia está em forte crescimento porque, em todo o continente, as novas gerações têm necessidades tecnológicas muito semelhantes aos seus pares em outras geografias, especialmente ao nível das TIC´s. O mundo das comunicações, redes sociais, comércio eletrónico, e-learning mostra poucas assimetrias na procura. As taxas de utilização da internet ou de propriedade de um telemóvel já não diferem muito de geografias mais avançadas. Mas o trabalho a fazer neste domínio é hercúleo. Em África, as comunicações móveis dominam, nunca existiram redes fixas baseadas em longas autoestradas de cabos a ligarem cidades, bairros e casas. A eletrificação rural chegará depois das redes móveis e não antes. As empresas já utilizarão as redes sociais como base da comunicação com o mercado, muito antes de terem uma página web ou um blog. Em África, o trabalho a fazer é o de satisfazer, com uma oferta barata e de qualidade, uma procura moderna de conteúdos locais baseados em hábitos globais.

Como avalia o conhecimento e importância que os líderes empresariais já atribuem às tecnologias, de forma a potenciar o investimento nas mesmas?

A pandemia Covid-19 e as medidas de mitigação implementadas por todo o mundo contribuíram de forma muito importante para a mudança de mentalidades ao nível da gestão de topo: foi a primeira vez que a maioria dos líderes de empresas com uma estrutura de decisão e relações de trabalho tradicionais tiveram de gerir trabalho à distância, reuniões não presenciais, equipas descentralizadas, sistemas de incentivos e recompensas baseados em performance e não apenas volume de trabalho, etc. A maioria dos gestores, neste momento, mostra maior propensão à manutenção destas novas relações de trabalho e, por isso, mostra-se disposto a investir nas tecnologias que as permitem.

Como pode a Axiz contribuir para uma maior formação e conhecimento das tecnologias existentes, para que os empresários possam reconhecer nelas uma mais-valia para as suas empresas?

A Axiz tem um papel de facilitador. É simultaneamente parceiro logístico e de distribuição das grandes marcas de tecnologia – garantindo acesso e suporte local aos utilizadores empresariais em várias geografias – e parceiro de tecnologia e conhecimento das empresas e cidadãos nos mercados onde opera – cabendo-nos um papel essencial na oferta de soluções adequadas às necessidades de cada mercado e de cada projeto.

A retoma económica, que tem vindo a ser falada durante este ano, poderá efetivamente concretizar-se?

Os mercados africanos sofreram impactos de forma diferenciada, se compararmos com, por exemplo, os mercados europeus. A maioria das economias africanas teve períodos de recessão mais como consequência da redução de procura de outras geografias do que por via da redução da sua procura interna. E por isso têm sido os primeiros a recuperar.

Como lhe parece que evoluirá o setor tecnológico? Quais as próximas áreas da tecnologia a serem aposta para um melhor desenvolvimento empresarial?

Se a procura de tecnologia está a aumentar, estará sempre nos planos da Axiz evoluir e crescer nos mercados africanos onde opera, adaptando a sua oferta em contexto. E mantemos o nosso otimismo no crescimento do e-government, do e-commerce, do e-learning, da utilização de internet em geral, da utilização das comunicações móveis, da utilização do computador pessoal e da utilização de tecnologia no dia a dia em geral em todo o continente africano.