“Água é vida”

A Norteaguas existe há cerca de 50 anos e desenvolve os seus projetos nas áreas da geologia, engenharia hidráulica e recursos hídricos. Rui Miritta, CEO da empresa, salientou, nesta entrevista, os desafios que esperam o país num futuro recente se não for alterada a forma como é gerido um recurso determinante, e cada vez mais escasso, como é a água.

0
157

Quais os serviços que prestam, neste setor, e quão importante tem sido a constante atualização – técnica e de recursos humanos – para se manterem um player estratégico desta área?

Essencialmente, ao longo de quase cinco décadas, a Norteaguas tem laborado na base de: Geologia e Hidrogeologia geral e regional, incluindo prospeção geofísica; Desenvolvimento de projetos geotérmicos; Sondagens de pesquisa e captação de água; Rebaixamento de níveis aquíferos; Poços de drenos horizontais; Aproveitamento de águas minerais e de nascente; Sondagens geotérmicas; Perfuração dirigida em profundidade;
Equipamentos de bombagem e tratamento de água das captações; Fornecimento e montagem de aparelhagem de medida, controlo e monitorização dos diversos parâmetros de exploração das captações de água, de um modo especial dos aquíferos de água mineral e sistemas geotérmicos; Condutas e equipamentos de adução e
distribuição de água e saneamento. Para além da experiência adquirida ao longo dos tempos, inovamos com quadros técnicos especializados nas áreas da Geologia, Hidrogeologia, Geotecnia e Geoambiente, fundamentais aos processos para os quais somos consultados.

Há muito que são especialistas em captação de furos de água. Qual a importância deste serviço, considerando a falta de água à qual Portugal está sujeito, que leva, por vezes, os decisores municipais a reduzirem ou limitarem o consumo deste recurso pelas empresas e particulares?

Se as empresas e/ou particulares se sentirem reduzidas ou limitadas no consumo de água, logicamente recorrem aos nossos préstimos. A decisão municipal de redução ou limitação deve-se essencialmente à falta de água Os reservatórios, as albufeiras, as charcas e os próprios rios não são alimentados. Temos assim de procurar água em
profundidade, e aí aparecemos nós. Equipamentos mais ou menos sofisticados permitem a procura da água em profundidades por vezes superiores a 500 metros, o que faz toda a diferença entre a autossuficiência e a
dependência de um fornecedor externo.

Furo de captação de água em Vila do Conde

Como se caracteriza o país no que respeita à existência de água subterrânea?

A água subterrânea é renovável, podendo até dizer-se inesgotável. As alterações climatéricas têm, entre outras, provocado longos períodos de estiagem e consequente diminuição das chuvas, que são o garante da existência e recarga de aquíferos. Muito sucintamente, num furo existem pelo menos três parâmetros de análise
fundamentais para verificar a evolução de água num aquífero:

-O nível hidrostático – N.H.E – também designado por nível freático, corresponde à profundidade a que a água se encontra num furo;

-Caudal – quantidade de água bombada que normalmente é medida em litros/segundo ou m3/hora;

-Nível hidrodinâmico – N.H.D. – profundidade que a água atinge num furo quando o mesmo se encontra em bombagem.

A observação sistemática destes três parâmetros permite, entre outros, o avaliar da quantidade de água subterrânea disponível no aquífero, e podermos assim aumentar ou diminuir o caudal de extração de água em função do comportamento do aquífero.

Quais os solos que melhor se adequam a esse tipo de captação?

Não podemos falar diretamente nos solos preferenciais para a execução de uma captação, mas sim, qual o tipo de solo ou rocha que iremos encontrar durante uma perfuração. Antes de se fazer uma captação de água, fazemos o que chamamos de “Furo de pesquisa e eventual captação de água”. Todo e qualquer furo de pesquisa e eventual captação de água é dimensionado e projetado de acordo com estudo prévio do local de execução, nomeadamente geologia geral e de pormenor, estudo hidrogeológico, análise de registos de furos, poços e nascentes nas proximidades e, em última análise, da realização de estudos geofísicos, caso sejam necessários que, pese embora sejam onerosos, são essenciais à falta de conhecimento científico prévio. Da compilação destes elementos será executado um projeto de execução do furo.

Portugal vivenciou, este ano, um dos piores anos de seca e a tendência é piorar. Tal deve-se às alterações climáticas, mas é fundamental que os líderes e os decisores, particulares, empresariais e públicos, reconheçam a importância da adaptação a uma vida onde a água é um recurso escasso. Em Portugal, parece-lhe que este reconhecimento já existe?

Na verdade, não me parece haver reconhecimento nem tão pouco adaptação a nova forma de vida relativamente ao consumo de água. Vou-lhe dar dois exemplos práticos:

-Reutilização da água da chuva – Não vislumbro, quer em particulares, empresas, setor público (caso extremo dos bombeiros) a canalização, armazenamento e consequente aproveitamento das águas das chuvas;

-Lavagens de automóveis automáticas (ou manuais) – O que acontece à água com que diariamente se lavam as viaturas? Seguem o curso contínuo da rede de águas pluviais e/ou residuais – honestamente não conheço nenhuma estação de serviço em que a água seja reutilizada.

Segundo a Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO), a atividade que mais consome água é a agropecuária. Sozinho, esse setor é responsável por 70% da água utilizada pelo ser humano, seguido pela indústria, com 22%, e, por último, o uso doméstico, com 8%. Incentivos ao aperfeiçoamento de técnicas de regadio no setor agrícola e o tratamento e reutilização no setor pecuário seriam algumas metas importantes a atingir e iriam certamente baixar de forma significativa o consumo. Se atentar à realidade portuguesa, só se fala em furos de captação de água quando há seca – rios, lagos, lagoas, albufeiras, charcas sem água – e aí recorre-se à execução desmesurada de furos de captação de água subterrânea. Então sempre temos água no subsolo. Fomos ao longo dos anos desvirtuando as captações de água subterrânea em prol das captações superficiais, pese embora tenhamos técnicos de excelência nos domínios da hidrogeologia, hidrologia e geotecnia, mas que não se encontram nos lugares de decisão do poder central, mantendo uma leve influência junto do poder local. É certo e sabido que os municípios, sempre que ocorrem fatores de seca, recorrem de imediato aos nossos préstimos, o que muito louvamos e agradecemos, mas uma atenção cuidada, um projeto capaz e coerente permitiria mitigar a falta deste bem precioso, conjugando as captações de águas superficiais (que se revelam por vezes insuficientes em períodos de estiagem), com as captações de água subterrânea.

Como pode a Norteaguas posicionar-se para fazer parte das soluções de futuro, no que concerne ao tema da proteção e reaproveitamento de água?

Tentamos inovar sempre em todos os setores relativos à água, quer na sua captação, armazenamento, distribuição, controlo, tratamento e, mais recentemente, no reaproveitamento. Temos colaborado na execução de
Estações de Tratamento de Águas e Estações de Tratamento de Águas Residuais. Felizmente, as gerações mais novas estão sensibilizadas para as questões ambientais e preservação e conservação dos ecossistemas e, nesse
sentido, temos apostado em quadros recém-formados que trazem novas perspetivas e valores que, aliadas ao conhecimento técnico científico dos colaboradores com décadas de experiência, permitem-nos estar na vanguarda dos projetos.

DEIXE UMA RESPOSTA

Please enter your comment!
Please enter your name here