Em tempos o projeto europeu podia ser descrito através do “tríptico” de Jacques Delors: “a competição que estimula, a solidariedade que une e a cooperação que reforça.” Hoje, num mundo radicalmente diferente, esses três pilares parecem insuficientes.
A competição estimulava a criatividade da indústria europeia – mas esta está hoje enfraquecida –, e tanto a solidariedade como a cooperação veem-se a braços com uma instabilidade e polarização política e social sem precedentes. Como exemplo da primeira, temos o problema económico alemão; da segunda, a instabilidade crónica francesa. Poderia dizer-se que estes problemas são conjunturais, mas isso seria ignorar o essencial: eles colocam-se sob uma mudança estrutural que rompeu, uma a uma, as ilusões que os europeus partilhavam desde o pós-Guerra. Rompeu com a ilusão da irreversibilidade do projeto europeu, quando se deu o Brexit.
Rompeu com a ilusão do fim da guerra na Europa quando a Rússia invadiu a Ucrânia. Rompeu com a ilusão da garantia de segurança americana, com o segundo mandato de Trump.
Nestes últimos anos a Europa deixou o seu “estado de inocência”. Seria assim proveitoso que os europeus, saídos dessa sua inocência, relessem o documento fundador do projeto europeu. “A paz mundial não poderá ser salvaguardada sem esforços criativos que estejam à altura dos perigos que a ameaçam”, encontramos escrito na Declaração Schuman. Hoje precisamos de outro esforço criativo. Tal implica agir em três vetores determinantes para adaptar a Europa ao mundo de hoje: aquilo que chamo os “três P” – o poder, o projeto, os princípios.
Em primeiro lugar, o poder. A Europa tem de assegurar urgentemente a sua autonomia estratégica, e isso implica regressar ao malogrado conceito de poder. Ou seja, à capacidade de mobilizar recursos em áreas vitais, entre as quais a defesa é existencialmente determinante. Depois de décadas a ignorar a necessidade de investir na defesa, hoje muito tem de mudar. O compromisso alcançado pelos membros da NATO foi um passo decisivo nesta matéria. É preciso que se cumpra, e com rapidez.
Em segundo lugar, o projeto. A Europa precisa de um novo sonho. Para mim esse sonho é claro desde os tempos em que fui Comissário Europeu: é o sonho de uma Europa líder em inovação. Quando cheguei a Bruxelas vi que tínhamos o desafio de traduzir a investigação de topo dos nossos cientistas em inovação que chegasse às pessoas. Foi isso que me levou a criar o Conselho Europeu da Inovação, uma espécie de Fábrica de Unicórnios a nível europeu. Hoje este esforço tem de ser aprofundado com o investimento em Inteligência Artificial – onde, há que ser claro, estamos muito atrás. Só apostando mais na inovação é que podemos almejar ter um papel preponderante no mundo. Esse deve ser, pois, o novo projeto, o nosso sonho novo.
Em terceiro, os princípios. Qual será o nosso papel no mundo? É o papel de defender princípios – uma tarefa essencial num mundo que corre o risco de rasgar as regras da ordem internacional do pós-guerra. O mundo hoje tem na Europa o único agente capaz de defender esta ordem internacional da cooperação e das regras. Estes são os princípios que temos de defender ao deixar uma marca no mundo: a cooperação contra a lógica da lei do mais forte. Como disse uma vez a primeira Presidente do Parlamento Europeu, a extraordinária Simone Veil, “somos responsáveis pelo que nos unirá amanhã”.
Esta foi a tarefa dos fundadores do projeto europeu. A nossa é a missão de renovar a razão dessa união.










