“Faz falta um olhar mais humanista da Arquitetura”

Hugo Ribeiro Lobo é CEO e diretor criativo do Grupo Zegnea, criado em 2008. Ao longo destes 16 anos de atividade, os princípios que norteiam a atividade arquitetural estão bem marcados nos vários projetos que já foram nomeados ou mesmo distinguidos com diversos prémios de Arquitetura. O CEO do Gr upo afirma que Portugal tem uma excelente qualidade autoral dos seus arquitetos, mas falta – a toda a sociedade e ao Estado – a capacidade de criar oportunidades a partir das dificuldades, nomeadamente esta da crise habitacional que atualmente atravessamos.

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Definem-se como “centro criativo”, que procura juntar a arte e a ciência, entre o irracional e a concretização física de um projeto. Como levam a cabo este trabalho multidisciplinar?

A Arquitetura é o centro de todo o processo, o fator impulsionador de toda a ação do Grupo. É, na sua génese, uma atividade colaborativa, uma cooperação entre pessoas, disciplinas, conhecimentos, implica obrigatoriamente uma
reflexão conjunta, entre o Lugar, o Objeto e o Homem. Através da Arquitetura, estimulamos todo um pensamento do conjunto, uma linguagem e visão interna, que permita olhar para toda a nossa atividade de uma forma singular,
identitária e criativa.

O facto de terem, no grupo, muitas áreas que se complementam, como a Arquitetura, a Construção, o Mobiliário e o Imobiliário faz com que consigam desenvolver um projeto “chave na mão” para os vossos clientes?

O conceito “chave na mão” entende esta dimensão de que o cliente nos delega a responsabilidade e coordenação de todo o seu processo, desde a conceção do projeto até à sua materialização. Implica uma estrutura eficiente e
dedicada em todas as fases, sob um forte compromisso profissional e humano. Os nossos projetos são assim o reflexo dessa relação de cumplicidade e colaboração que desenvolvemos com os nossos clientes, a procura de um constante equilíbrio entre as suas próprias vontades e a visão que nós temos para a sua pretensão. É um campo sensível, onde, tem de existir um elevado grau de confiança e necessariamente uma identificação com a nossa linguagem.


Que projetos gostariam de assinalar como sendo aqueles que melhor exemplificam esta amplitude de serviços prestados?

Diria que os projetos relacionados com a habitação são aqueles que conseguem expressar melhor todos os nossos princípios, essencialmente, porque trabalhar sobre o tema habitação possibilita-nos intervir e pensar numa
Arquitetura de “proximidade” para com as pessoas, contribuir para o seu bem-estar, para o melhoramento da sua condição de vida. Por outro lado, estimula-nos a refletir sobre as diferentes vivências, de apropriações do espaço, as necessidades de cada um, porque todos temos uma identidade e a Arquitetura deve ser capaz de dar respostas
adequadas a problemas diversos.

São já vencedores de alguns prémios de Arquitetura. Que fatores consideram relevantes nos projetos vencedores que os fizeram alcançar estes lugares?

Acreditamos que a Arquitetura deve ser “honesta”, que deve refletir uma visão clara da nossa identidade enquanto autores e o “discurso” a que nos propomos. Olhando para estes 16 anos de atividade, penso que são relativamente
identificáveis os princípios sob os quais sustentamos o nosso trabalho, existe uma narrativa expressa, na procura, na pesquisa, na espacialidade e numa constante interpretação e reinterpretação da forma como habitamos. Penso
que de certa forma é esta clareza que promove o reconhecimento do nosso trabalho.

Já é possível, em Portugal, fazer uma Arquitetura que seja sustentável, mesmo com um orçamento mais limitado?

A “sustentabilidade” é uma premissa base da Arquitetura. Atualmente, associa-se o termo “sustentável” na sua dimensão ambiental e ecológica, mas, a sustentabilidade, para o interesse do pensamento arquitetónico, tem mais dimensões, nomeadamente a social, económica, espacial, entre outras. A Arquitetura tem, assim, esse dever – ser sustentável em todos os seus campos. É um erro entender-se que o orçamento é um inibidor de se conseguir fazer uma Arquitetura capaz de dar estas respostas. Importa, sim, uma consciencialização das pessoas, uma mudança
de mentalidades, no sentido de percebermos que a sustentabilidade não é uma “meta” imposta, mas sim uma condição natural do que deve ser uma boa opção arquitetónica.

Que elementos são fundamentais para uma boa Arquitetura? A luz, a Natureza e elementos como formas geométricas e materiais naturais ajudam a criar um espaço diferenciado?

Projetar é exprimir-nos! Uma boa Arquitetura é a que consegue estabelecer um bom “Diálogo”. Elementos como a luz, a sombra, o cheio e o vazio, a forma e a materialidade são “recursos estilísticos” que enriquecem este “Diálogo”. Entenda-se aqui “Dialogar” na forma como nos relacionamos com um espaço, como nos apropriamos dele, como nos emocionamos e nos sentimos tocados por ele. Afastamo-nos de uma perceção da Arquitetura
enquanto “tendência”, interessa-nos o seu carácter de longevidade, de adaptabilidade e de perduração no tempo.

Como analisam o presente e o futuro da Arquitetura em Portugal?

Do ponto de vista autoral, é inegável a qualidade dos nossos profissionais, observa-se um reconhecimento expressivo da nossa comunidade arquitetónica e artística no panorama nacional e internacional. No que diz respeito
à prática, poderíamos estar a explorar muito melhor as oportunidades que o nosso país nos oferece. Falo das oportunidades que advêm das dificuldades, passamos hoje por uma manifesta crise habitacional e deveríamos, todos, ter a capacidade de a transformar em oportunidade. As gerações mudam, as necessidades mudam, os modos de habitar alteram-se e, incrivelmente, assistimos a uma resistência, generalizada, em alterar paradigmas, tipologias, regulamentos, diplomas legislativos e formas de planear o território que deveriam estar a apresentar-se como estímulos para um outro olhar sobre a Arquitetura, mais Humanista!