O valor do despacho aduaneiro na economia global

José Roma de Andrade é o CEO da Roma Andrade, um despachante oficial que conta com uma experiência acumulada neste setor de mais de 35 anos. Em entrevista à Valor Magazine, salientou algumas questões que, a seu ver, necessitam de resolução rápida.

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O Despachante Roma Andrade é um despachante oficial. Que serviços prestam, além da importação/exportação de mercadorias?

Temos uma experiência acumulada de mais de 35 anos, sediados em Lisboa, com delegações em Sines, Leixões e no aeroporto de Lisboa, somos especialistas em Comércio Internacional e nos procedimentos alfandegários em vigor, com particular destaque para as áreas da contrastaria, cosmética, medicamentos, suplementos alimentares, alimentação, equipamentos elétricos e eletrónicos. Em simultâneo à nossa atividade de Despachante Oficial, com uma carteira de clientes atual que representam 60% da nossa atividade na importação e 40% na exportação, exercemos igualmente uma função de consultores aos acordos de comércio internacional entre a União Europeia e países como a Coreia do Sul, Canadá, Singapura, Japão ou acordo do Mercosul para a América Latina.

O Despachante Roma Andrade é especializada em algumas áreas de comércio internacional. Qual a vantagem dessa especialização, para a empresa e para os seus respetivos clientes?

Hoje é um facto incontornável dos tempos modernos a globalização económica e digital. Assim desenvolvemos a nossa atividade como Despachante Oficial sempre com o objetivo de apoiar as empresas na promoção dos seus produtos no comércio internacional dos tempos modernos sempre numa perspetiva de importação e exportação.

Uma empresa portuguesa pode ter na China a sua fábrica e no Brasil o mercado de consumo dos seus produtos. Embora não existam barreiras a este tipo de fluxos de mercadorias, existem controlos alfandegários que condicionam a entrada e a saída destes diferentes territórios pelo que o desembaraço aduaneiro é essencial.

Acresce ainda que nesta cadeia global de distribuição de mercadorias a nível mundial os INCOTERMS atualizados pela ICC – Internacional Chamber of Commerce são importantes porque definem regras para cada operação comercial. As regras por grupo são classificadas de acordo com as taxas, risco, responsabilidade por formalidades, bem como questões relacionadas à importação e exportação.

Como especialistas pelo desembaraço aduaneiro asseguramos igualmente conceito de serviços logísticos integrados passa pela oferta de um conjunto de serviços transversais a toda a cadeia logística intermodal, capazes de responder às reais necessidades do trânsito internacional de mercadorias, desde o ponto de expedição ao ponto de destino, incluindo o porta a porta, de qualquer região do Globo.

Considerando a vossa ligação à China e ao respetivo comércio com este país, o que importa salientar sobre a legislação alfandegária chinesa?

Tal como anteriormente referimos as transações de mercadorias entre diversos países obedecem às legislações em vigor de cada país que delimitam normas e características dos produtos a transacionar, por exemplo na contrataria ou nos suplementos alimentares, e nesse contexto a China não é diferente de outro pais ao aplicar a suas normas como a UE o faz igualmente. Exportar um produto para a China exige toda a tramitação processual de despacho pelo agente aduaneiro Chinês assim, como a em sentido inverso, esse processamento de documentação e desembaraço alfandegário e fiscal é da competência do despachante português se a mercadoria der entrada em Portugal, mesmo com destino a outro país europeu.

Os têxteis e o calçado são dos produtos mais transacionados em Portugal. Como se posiciona a Roma Andrade relativamente ao trabalho com estes dois produtos?

As importações da China terão um peso na nossa atividade como despachante na ordem dos 55% seguindo-se a Coreia do Sul, Países do Mercosul, EUA/Canadá e a India com os restantes 45%. Apesar se haver algum trânsito de mercadorias no comércio eletrónico o grosso das importações que vem da China assentam de facto nos têxteis e no calçado. Há contudo que ter a noção, por exemplo no calçado, que grande parte dos produtos importados são componentes para o fabrico do calçado português de qualidade e baixo preço que lhe dê competitividade para os mercados externo e interno.

Como é que a pandemia influenciou o vosso trabalho, enquanto despachantes oficiais?

Foi um grande esforço na medida em que estivemos na linha da frente, como todas as cadeias de distribuição que não pararam no abastecimento ao país. A nossa função está a montante de um longo processo que o cliente apenas reconhece na proximidade de abastecimento do produto que consome. Não parámos, não houve lay-off nem teletrabalho, pois a nossa atividade implica na maioria das situações uma atividade presencial de acompanhamento do desembaraço alfandegário, assim como controle de todo o circuito logístico que a mercadoria do nosso cliente se encontra à nossa responsabilidade.

Este período de pandemia, que ainda não terminou obrigou a um esforço maior que, de forma agravada, nos submeteu a uma drástica redução de receitas, uma vez que durante os períodos mais críticos em que se impôs o confinamento das pessoas e do mercado fomos afetados porque o número de despachos efetuados não sofreu grande alteração, mas o seu volume foi muito inferior. Dado que o despachante oficial é remunerado pelo valor das mercadorias transacionadas ou pelo número de contentores, designado TEU, durante a pandemia tivemos despachos mas a quantidade de mercadoria em cada despacho reduziu cerca de 60 a 70%, uma vez que não havia mercado. Situação que nos trouxe graves problemas de receitas e de tesouraria ainda não estabilizadas, nem lá perto, à data de hoje.

Por sua vez, as compras online aumentaram e vieram para ficar, mas acarretam em si mesmas um volume de quantidade de importação significativamente mais baixo, que nos leva a uma adaptação futura de termos mais despachos com mais custos operativos e receitas diminutas.  

Por fim, não podemos deixar de referir que os contentores, uma peça fulcral do comércio global, estão em falta. Hoje o seu valor comparativamente há um ano atrás quintuplicou. A pandemia causa fortes constrangimentos a todos os níveis da cadeia logística e como afeta de forma assimétrica os produtores e a sua mão-de-obra e os mercados e os seus consumidores, estamos a viver uma situação que nos leva à falta de componentes para as fábricas e consequente falta de produtos no mercado. Acrescentando a este cenário a atual crise energética instalada e a diversificação de risco global dos mercados, que ainda hoje vivem sob a pressão de uma pandemia longe do seu fim, continuamos a antever dificuldades num futuro próximo pelo que teremos de ser muito realistas nas análises de risco.

Asseguram aos vossos clientes agilidade e rapidez no despacho de mercadorias e no processo alfandegário. Como é possível garantir essa questão?

Um processo de despacho alfandegário está regulado. Assim os nossos clientes ao movimentarem as suas mercadorias sob a nossa orientação não têm surpresas ou entraves pelo que a nossa atividade assenta numa eficácia de processos que correspondem a uma rapidez de desembaraço da mercadoria. Contudo, estamos conscientes, face ao cenário de risco atual que o comércio internacional vive em termos de incerteza, que o fator confiança que transmitimos em resultados para os nossos clientes é fundamental.

Quais os principais problemas que regista, no setor, e aos quais é importante dar resposta? 

A sistemática demora no cumprimento de formalidades aduaneiras, com mercadorias originárias da China, provoca a quase certa retenção de contentores no porto de Sines, para além do tempo normal.

Este é para nós o principal problema que se regista no sector, senão vejamos: Invoca-se o baixo valor dessas mercadorias. É falso o argumento porque as mercadorias do Bangladesh, da Índia ou do Camboja têm valores significativamente mais baixos e ninguém se preocupa com isso. O alegado do baixo valor das mercadorias chinesas nem se insere na guerra comercial com a China. O que se pretende é que as mercadorias não descarreguem em Sines, no Pireu ou em Algeciras e sigam diretamente para Roterdão, Antuérpia ou Havre. As dificuldades causadas aos importadores portugueses e espanhóis no Porto de Sines, provocou a deslocação de grande parte do tráfego de contentores para Roterdão e Antuérpia. Os valores rejeitados em Sines são pacificamente aceites lá. Depois há que contar com a viagem de Roterdão para Portugal ou Espanha. Mas compensa. Nenhum importador e distribuidor de mercadorias quer correr o risco das surpresas que lhe podem acontecer em Sines. No último trimestre de 2018, ficaram retidos, entre duas e oito semanas, em Sines, 1 500 contentores com vestuário e calçado chineses, dos quais mais de 1 000 traziam vestuário e calçado com a etiqueta do preço final ao consumidor. Mesmo assim foram invocadas pretensas dúvidas da Alfândega sobre o valor e provocaram a retenção destes 1000 contentores e pesadas demurrages. Ninguém aceita descarregar num porto que tem destas surpresas. Isso explica que só entre 2018 e 2019, o porto de Sines tenha perdido perto de 40% da carga contentorizada. Ainda por cima, os tribunais têm repetidamente declarado ilegais as correções de valor aduaneiro por parte das Alfândegas, mas estas preferem aceitar instruções ilegais da Comissão Europeia e não cumprir a lei. Um dirigente que se oponha a decisões da Comissão, mais concretamente do OLAF, mesmo que claramente ilegais, não tem hipóteses de manter o lugar por muito tempo. É que os governantes do Ministério das Finanças nem aceitam que seja doutra forma. A Comissão Europeia está acima da lei e dos tribunais. A crise polaca atual tem a sua origem na subordinação e desrespeito do poder judicial. Rasgam-se as vestes por causa disso. Mas o que pensar do desprezo dispensado pela OLAF, polícia financeira da Comissão, quando exige que Portugal ignore a jurisprudência dos seus tribunais superiores? É falso o pretexto da defesa dos interesses financeiros da UE .Os valores aduaneiros declarados em Roterdão, porto de entrada e saída da Alemanha, são idênticos aos de Portugal, de Espanha ou da Grécia. Se fossem os interesses financeiros da UE que estivessem em causa, também eram corrigidos os valores do vestuário importado pela Alemanha; país que importa da China 30 vezes mais vestuário que Portugal. A Alemanha não tem 30 vezes a população portuguesa, mas é um grande exportador para a China, tal como a França. Importam, mas também exportam. O que acontecerá à suinicultura ou à produção de produtos lácteos portugueses se a China se lembrar de retaliar como fez recentemente com a Lituânia? A resposta à óbvia, teremos um mar de falência de pequenos produtores agropecuários. O tema é do conhecimento do Governo, foi denunciado a Mário Centeno e ao atual SEAF; foi reprovado pelos tribunais. Porém, o propósito é fazer desaparecer de Sines a Carga contentorizada desde que originária da China.