A RVDM tem quase três décadas de atividade, dedicada à Arquitetura, ao Desenho Urbano e ao Design. Como evoluiu? Há alguma “marca”?
As respostas e os desafios têm sido bastante diversos. O que tento manter é a máxima atenção ao projeto, procurando dar uma resposta que ultrapasse as expectativas do cliente. A Arquitetura impõe-se. Por isso tem de responder além do programa, ser mais do que se espera e equaciona. Na RVDM procuramos (porque somos uma equipa) dar mais do que aquilo que nos solicitam. Mas há constantes no nosso trabalho – a luz natural, a amplitude dos espaços, os materiais naturais. No entanto estas características têm de ser doseadas em função do local, das relações urbanas, da solução construtiva. É esse equilíbrio que se procura sempre. Para que o projeto e sobretudo a obra acabada possa ser o mais natural possível. Que se justifique a si mesma.

Que projetos gostaria de salientar que vão ao encontro do que explicou acima?
É mais fácil mencionar os mais recentes. A Casa na Forca-Vouga em Aveiro, por exemplo, teve de se equilibrar entre exposição e clausura, definindo critérios para os vãos. A posição de uma janela, de uma porta, é importante na qualidade de um ambiente. Ela ajuda à entrada de luz, mas também a deve controlar. Ela permite ângulos de visão, mas também organiza a imagem exterior. Tudo tem de ser testado e verificado previamente, no projeto.
Uma pequena torre de habitação no centro de Aveiro também reflete esse cuidado com o resultado urbano. As especificidades do sítio, a relação com um grande edifício existente e a orientação solar, bem como a organização
interna num terreno escasso e triangular, definiram a forma final do Edifício Lumínea. Esteve sempre presente a vontade de obter mais espaço público, de qualificar o lugar e propor habitações mais confortáveis e amplas. Não desperdiçar espaço!

Como organiza a criatividade para cada projeto?
Há um processo e uma metodologia. Primeiro o diagnóstico e só depois a ‘terapêutica’! Não acredito em imagens preconcebidas para a Arquitetura. Cada projeto tem a sua especificidade. Lugar e Programa bem resolvidos, são mais de metade da solução. O lugar é a relação formal, geográfica, ambiental, luminosa e até social com o sítio. O programa é também um conjunto de relações, entre utilizadores, entre espaços e hierarquias, entre interior e exterior… Esta visão pormenorizada do projeto com o local, levanta questões relativamente à tendência atual para
a prefabricação em Arquitetura, reclamada pela indústria e pela necessidade de acelerar processos construtivos. Deve haver um equilíbrio entre esta atenção ao detalhe, de que a Arquitetura portuguesa é herdeira e embaixadora, e a celeridade do processo. Para que as novas exigências não coloquem a Arquitetura, de novo, como produção objetual. Ela tem uma responsabilidade maior na organização do território.
“Não acredito em imagens preconcebidas
para a Arquitetura. Cada projeto
tem a sua especificidade. Lugar
e Programa bem resolvidos, são mais
de metade da solução”.
Que materiais utiliza nos seus projetos? Os materiais naturais e sustentáveis são importantes na criação de um projeto?
Os materiais devem ser duráveis e tendencialmente intemporais. No contexto cultural europeu e ocidental, a Arquitetura trabalha no sentido da construção duradoira. Se quisermos pensar em termos de sustentabilidade, a durabilidade é importante pois permite rentabilizar e amortizar um investimento! Depois há a necessidade de usar materiais que permitam maior conforto no espaço e economia no processo. A madeira, de produção sustentável e
não exótica, é uma boa opção. Neste conjunto importa atender também à resposta térmica e energética que as diferentes soluções promovem. O paradigma da circularidade dos materiais e da conservação de energia não podem ser negligenciados. O Edifício Orizzont, de habitação multifamiliar utilizou a madeira desidratada como solução térmica e sustentável para dosear o contacto do edifício com o exterior, no caso com uma paisagem
lindíssima. O uso alargado da madeira está a ter um impacto crescente na indústria, mesmo em soluções integrais com estruturas também em madeira modificada.

Há espaço para maior inovação e evolução na Arquitetura nacional, face a outros países, na sua opinião?
A Arquitetura portuguesa está atenta à inovação e há bons exemplos quer no projeto quer na construção. A inovação maior passa pelas técnicas construtivas. A digitalização está em curso e a aptidão construtiva terá de acompanhar esse processo. A construção em Portugal ainda está um pouco lenta nessa aproximação ao processo
digital. Nos grandes centros e nos grandes projetos a resposta é mais adequada, nos pequenos ainda há resistência. É nesses meios pequenos que se sente maior desrespeito pelo projeto, pelo vínculo que ele deve ter com o resultado. Em Portugal despende-se pouco tempo com o projeto e muito tempo com a obra. Porque se altera
na obra, porque a burocracia consome tempo, porque os decisores estão mal assessorados e decidem lentamente.
“Deve haver um equilíbrio entre esta
atenção ao detalhe, de que a Arquitetura
portuguesa é herdeira e embaixadora, e
a celeridade do processo”.
O que vemos internacionalmente na área da Arquitetura e do Urbanismo que ainda carece em Portugal?
Uma preocupação social e territorial. Que já existiu em Portugal, mas que atualmente está arredada das prioridades políticas e empresariais. O direito à habitação, consagrado na Constituição portuguesa! O direito à paisagem e ao silêncio! A aposta na mobilidade de proximidade e na eficiência energética. A organização continuada do território, resolvendo bolsas de extrema desorganização e desordenamento territorial que têm
efeitos nefastos e graves sobre a qualidade de vida das populações e resultam em desperdício de recursos e energia.










