“A preservação ambiental está nos genes dos manteiguenses”

Manteigas é um município que se insere completamente no Parque Natural da Serra da Estrela. Conhecida como "o coração da Serra da Estrela", a autarquia, sob a presidência de Esmeraldo Carvalhinho, desenvolveu exponencialmente o Turismo de Natureza e bem-estar. Num concelho onde o património natural é imenso, a distinção com a Bandeira Verde, no âmbito do programa ECOXXI, e o primeiro lugar no indicador de Gestão e Conservação das Florestas, bem como no da Recolha Seletiva de Resíduos Urbanos, vem comprovar a importância que é dada à Natureza e à sua proteção por este município.

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Esmeraldo Carvalhinho, Presidente da Câmara Municipal de Manteigas

Como caracteriza o seu concelho, nas áreas da qualidade de vida e bem-estar, bem como a nível económico?

Manteigas foi considerada, em 2020, o município com melhores condições para residir, por um estudo da Marktest, e já não foi a primeira vez. Esta avaliação é feita tendo como base o investimento na criação de emprego, as condições naturais e a qualidade de vida. Manteigas insere-se totalmente no Parque Natural da Serra da Estrela, com altitudes que vão desde os 550 até aos dois mil metros de altitude. Estas características únicas de topografia conferem ao território condições de atração turística únicas no país. Esta é, aliás, a principal atividade económica do concelho. A atração turística ficou ainda mais reforçada com o reconhecimento do Geopark como Património Mundial pela UNESCO, cujos ícones geológicos mais relevantes se situam neste concelho. O Vale Glaciário do Zêzere, os Cântaros, os Covões e as lagoas de águas cristalinas e os dois rios Zêzere e Mondego são elementos estruturantes da ecologia do território municipal.

Manteigas venceu, em 2020, o galardão ECOXXI, enquanto eco-município, com 68,4 por cento, tendo ficado em primeiro lugar no Indicador de Gestão e Conservação da Floresta. Qual a importância da atribuição deste galardão?

Este galardão é importantíssimo para nós, porque vem reconhecer a atividade do município na preservação e conservação ambiental, bem como a proteção das características naturais do concelho. A floresta preenche mais de 60 por cento do território, há cerca de 12 anos que temos instalada e cuidada a rede primária de gestão de combustíveis florestais que contribui para a prevenção de incêndios florestais, no concelho. O resultado no indicador de Gestão e Conservação das Florestas advém da grande preocupação da conservação das florestas e do seu ordenamento. A floresta e a sua manutenção estão desde tempos imemoriais na forma de ser dos manteiguenses. De Manteigas emanaram durante muitas décadas as orientações para a gestão florestal das várias regiões do país. Somos também considerados um concelho campeão no que respeita ao indicador de Recolha Seletiva de Resíduos Urbanos. Este galardão permite tornar Manteigas mais ecológica e por essa via mais atrativa, o que aumenta também o interesse educativo nesta área patrimonial. Desenvolvemos constantemente projetos junto da comunidade escolar e temos em curso um projeto de um Centro que pretendemos que se torne um Centro Ciência Viva, com vista à criação de mais uma oferta turística ambientalmente integrada, que contemple o turismo natural, cultural e científico. Queremos criar sinergias em rede com outros projetos nacionais e estrangeiros promotores do turismo sustentável, ligado à Natureza.

Como é dinamizado o turismo de Natureza e bem-estar?

Manteigas tem um conjunto de percursos pedestres que perfazem 200 quilómetros, num concelho com 11 quilómetros quadrados. Cada um destes percursos pedestres tem características únicas. Eu diria que, a cada 500 metros de cada percurso, temos novas sensações, novas paisagens e novos cheiros, resultantes da estratificação tanto da topografia como da biodiversidade do território. Através destes percursos pedestres, promovemos programas de visitação aos locais menos acessíveis do nosso território, de acordo com as características naturais, sua fruição e necessidade de as preservar, ao mesmo tempo que proporcionamos a atividade económica das empresas de animação turística. Em Manteigas existe também uma estância termal modernizada que dinamiza o turismo de bem-estar. Todas estas características e atividades levaram a que Manteigas seja um dos concelhos que mais cresceu, no que respeita a atração turística – em 2018, crescemos 90,4 por cento, em termos de dormidas turísticas. Não existem ainda dados mais recentes, mas temos a certeza de que em 2019 os resultados são superiores. Além disso, beneficiámos de um aumento significativo de equipamentos hoteleiros de elevada qualidade que dignificam o concelho e criam condições de bem-estar para quem procura ar puro, águas cristalinas, natureza e tranquilidade. Isso acontece porque os investidores veem em Manteigas características únicas para fixar o seu negócio. Importa salientar que não pretendemos um turismo selvagem, massificado e desordenado, mas sim um turismo sustentável, positivo para a economia local sem adulterar as condições ambientais.

A pandemia permitiu que os cidadãos nacionais se voltassem para o turismo nacional, sobretudo no interior do país?

Sim, sem dúvida nenhuma. Com as fronteiras fechadas, os cidadãos nacionais descobriram o país e novos destinos turísticos, que até aqui não lhes eram apetecíveis. No caso de Manteigas, o Verão de 2020 foi o melhor Verão de que há memória para a atividade turística. O impedimento de concentração de turistas no litoral por via da situação pandémica que o país vive obrigou a alternativas e foi a oportunidade para que os portugueses conhecessem melhor o que temos no Interior e o valorizassem.

Que medidas adotou a autarquia, aquando da chegada da pandemia, relativamente às necessidades sociais e económicas das famílias e empresas da região?

Logo a 4 de abril de 2020, decidimos reduzir para 50 por cento o pagamento da fatura da água das empresas e das famílias. A Câmara promoveu também a testagem aos grupos da população mais vulneráveis à Covid-19, como trabalhadores dos lares, IPSS, bombeiros e do próprio centro de saúde. O Fundo de Emergência Social, que se destina a ajudar famílias com carência económica, aumentou a rúbrica orçamental e a ele recorreram famílias que deixaram de ter condições para pagar água, luz, bens essenciais. Promovemos um conjunto de obras significativas com vista a reforçar a atividade económica das empresas de construção. Ajudámos as empresas em tudo o que eram equipamentos de proteção individual. Mais recentemente, isentámos as empresas do pagamento total da fatura da água dos meses de novembro e dezembro. Criámos uma bolsa de voluntariado para ajuda aos mais isolados no acesso a bens e serviços. Instalámos, com outros parceiros, nomeadamente a Igreja, uma cantina social. Pusemos a funcionar o Conselho Local de Ação Social. Dos eventos que não se realizaram, realocámos o valor à rúbrica orçamental destinada a ajudar as empresas que tiveram perdas de faturação e ainda atribuímos uma parte dessa verba a três IPSS do concelho.

No que respeita à sua função de autarca, que análise faz do que foi feito e do que falta fazer?

Eu sou autarca já há alguns anos. Já fui autarca noutro município e agora estou em Manteigas, de onde sou natural. O que me fez regressar foi o projeto iniciado em 2010, de recuperação e redirecionamento da atividade económica do concelho. Manteigas era um concelho que vivia essencialmente da área têxtil, que tinha sofrido uma forte quebra durante a crise económico-financeira. O Turismo era uma área com poucos proveitos económicos aqui. O que fizemos foi redirecionar a economia para essa área, com total respeito pelas condições naturais do concelho. Esse projeto ainda não está concluído, nem nunca estará, mas os resultados são francamente positivos, com tendência a crescerem. Para ser autarca, temos de ter paixão pelo nosso trabalho. Sentimos às vezes um certo desalento, porque estamos diariamente sob o escrutínio de oposições cujo objetivo é atrapalhar, mas quando há resultados positivos o ânimo não falta. O que falta fazer? É sempre muito mais do que já foi feito, mas espero que com o nosso trabalho as condições económicas e sociais de Manteigas cresçam ainda mais e o concelho continue na senda da atração e consequente retorno e fixação de população que desenvolva a atividade necessária ao bem-estar dos residentes e visitantes.

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