“As mulheres são focadas e conciliadoras”

Rita Lopo é administradora da A.M. Holding, uma empresa de cariz familiar com origens no setor dos combustíveis. Detentora da marca “Azoria” e com participações noutras empresas deste setor, como o Grupo Alves Bandeira, a A.M. Holding diferencia-se pela qualidade dos seus quadros e pela sua capacidade de adaptação. Rita Lopo falou com a Valor Magazine sobre a gestão feminina da empresa, as dificuldades encontradas e os desafios que o futuro trará.

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Rita Lopo, administradora

O facto de ser mulher dificultou o seu percurso profissional?

Confesso que não tenho bem essa consciência, até porque nunca me preocupei muito com o tema. Sempre fui profundamente igualitária e acho que um homem vale tanto como uma mulher, o que conta é o indivíduo. No entanto, olhando em retrospetiva, tenho de reconhecer que houve momentos em que o facto de ser mulher fez alguma diferença (e ainda faz). Sobretudo em indústrias marcadamente masculinas, como os combustíveis ou a distribuição de pneus, e em áreas como as vendas e outras, chegar a um lugar de liderança tornava-se mais difícil. Cheguei a ter situações caricatas, como uma em que o meu chefe me perguntou se estava a ter algum problema com os meus clientes, pergunta que sei que não fez a nenhum dos meus colegas homens, ou outra em que o meu colega da manutenção da rede de postos de abastecimento me disse que eu olhava para as bombas do posto como para os móveis da minha cozinha….

A liderança de uma mulher é distinta da de um homem?

Sim, bastante. Não quero com isso dizer que é melhor ou pior, mas é diferente. As mulheres são mais focadas (ao contrário do que se possa pensar) e mais conciliadoras. Aliás, no último fórum de gestão a que assisti em Madrid, o foco foi exatamente inteligência emocional e o quanto é importante balancear a liderança das empresas com homens e mulheres. Curiosamente a McKinsey fez um estudo e concluiu que as mulheres pontuam melhor em 12 das 16 competências consideradas fundamentais para a liderança e em duas que sempre foram consideradas como o apanágio da liderança masculina: tomar iniciativa e orientação para resultados. Na minha experiência na área de IT, conclui que quando começamos a ter equipas muito masculinas (há mais programadores homens que mulheres), a performance piorava. Assim como equipas totalmente femininas enfermam de algumas disfunções, concluímos que as equipas mistas se equilibram melhor, ao misturarem características mais relacionadas com o género.

Ainda é mais difícil uma mulher impor-se profissionalmente do que um homem?

Infelizmente sim. Pelo menos em Portugal.

Reconhece nas empresas portuguesas uma maior abertura às posições de liderança feminina?

Quero acreditar que sim, mas francamente não consigo dizer. Assumo que haja uma grande diferença entre multinacionais e empresas de grande dimensão, mas a verdade é que, se olharmos para os líderes e cargos de topo das empresas portuguesas, ainda vemos maioritariamente homens.

Sentiu alguma vez que tinha de descurar um lado – pessoal ou profissional – em detrimento do outro?

Nesse aspeto creio que viver em Portugal é uma sorte. Primeiro porque não há um julgamento social pelo facto de uma mulher querer ter sucesso profissional, ao contrário do que vi acontecer, por exemplo, na Alemanha e outros países. Adicionalmente porque, tendo capacidade económica, ainda se consegue arranjar ajuda que permita equilibrar os papéis pessoal e profissional. No entanto, é profundamente exigente conseguir equilibrar os dois papéis. Há que ter cuidado para não descurar um deles, pois o preço a pagar pode ser elevado.

Relativamente à empresa, fale-me um pouco da evolução que esta tem feito e daquilo que a distingue no mercado.

A nossa empresa é uma holding de cariz familiar, que tem vindo sempre a desenvolver negócios em parceria com outras empresas ou empresários individuais. Com um ADN muito marcado na área dos combustíveis, o que nos distingue hoje é a qualidade dos nossos quadros e capacidade de adaptação. Por norma gostamos de investir em empresas ou negócios em que possamos estar envolvidos na gestão e damos muito valor ao desenvolvimento de quadros e à sua formação. Continuamos envolvidos na área dos combustíveis pela participação societária que temos no parque de combustíveis líquidos nos Açores e a propriedade de postos de abastecimento da marca “azoria”, mas também pela nossa participação no Grupo Alves Bandeira, através do qual nos envolvemos também noutras áreas de negócios, tal como a da distribuição dos pneus. No entanto temos outros negócios (por exemplo os materiais de construção civil e exploração de inertes através da Nortenhazores), em que a matriz açoriana (berço da empresa) é um valor a ter em conta. E continuamos a fazer experiências noutras áreas e a ajudar as gerações mais novas a criar as suas empresas, o que fizemos ao financiar um projeto na área da restauração da comida saudável com o NOLA Kitchen no Porto e outros projetos que estão em estudo. Uma das características distintivas da empresa é que, curiosamente, tem duas leaders femininas e não faz distinção de género. Adicionalmente é a capacidade de adaptação. Como diz o Tom Peters: quem experimenta mais coisas e faz mais faz asneiras mais depressa, ganha.

Quais os desafios que esperam a empresa na próxima década?

Neste momento e no meio de uma crise mundial que não fazíamos ideia que iríamos ter há um mês, é mesmo muito difícil pensar na próxima década. No entanto, do ponto da empresa os maiores desafios são fazer uma transição de liderança correta e bem-sucedida e não perder a Visão que motive os acionistas e os seus quadros a trabalhar nela com paixão.

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