“Portugal tem provas dadas nas áreas da Ciência e da Investigação”

A Boehringer Ingelheim é uma farmacêutica alemã que se implementou no mercado português em 1960. Especialista em doenças do foro respiratório, metabólico e cardiovascular, esta empresa está na linha da frente da investigação de soluções para a Covid-19, como salienta a diretora-geral, Sandra Marques.

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Sandra Marques, diretora-geral

A Boehringer Ingelheim é uma empresa centenária e uma das principais farmacêuticas mundiais. O que faz esta empresa continuar a apostar no mercado português? Como avalia este mercado?

A Boehringer Ingelheim é, de facto, uma empresa centenária, fundada por Albert Boehringer em 1885, na Alemanha. Em Portugal desde 1960, iniciou atividade com instalações fabris e escritórios e tendo como missão a produção e distribuição de medicamentos. A aposta no mercado nacional continua a fazer sentido, pois apesar de se tratar de um mercado de pequena dimensão, tem um potencial de dinamização inversamente proporcional ao seu tamanho. Em termos de criação de oportunidades, o nosso mercado é muito atrativo, e embora sendo considerado tradicional no modelo de acesso aos clientes, está em constante evolução. Em algumas das áreas terapêuticas onde operamos e trazemos inovação – área respiratória, área cardiovascular e área metabólica – existem necessidades não satisfeitas e oportunidades de melhoria na acessibilidade aos cuidados de saúde, o que justifica que se continue a investir no nosso mercado em crescimento, com todas as incertezas subjacentes, com apostas ágeis e de valor acrescentado. Em Portugal, a prevalência do Acidente Vascular Cerebral (AVC) é elevada, atingindo uma pessoa a cada 23 minutos. É a primeira causa de incapacidade permanente em adultos, com cerca de oito mil sobreviventes a necessitar de reabilitação especializada e intensiva, sendo que dois terços não têm acesso a essa reabilitação. A Diabetes, que afeta cerca de 10 a 13 por cento da população adulta, torna o nosso país o que apresenta uma das taxas mais elevadas da Europa, segundo o relatório do Programa Nacional de Diabetes de 2019. As doenças respiratórias, representam, por cá, a terceira causa de morte.

Como caracterizaria a relação existente entre Portugal e Alemanha, sobretudo no que respeita à importância dos mercados português e alemão um para o outro?

Embora cada um dos mercados tenha a sua especificidade e as suas características únicas, há muito que se pode partilhar. Um exemplo disso é o CONSANAS, sediado no Hospital da Prelada, no Porto, um centro especializado e intensivo em reabilitação de AVC, que resulta de uma parceria entre a Boehringer Ingelheim Healthcare Management e a Misericórdia do Porto e que inclui protocolos alemães no tratamento de doentes portugueses. O CONSANAS – Hospital da Prelada oferece a estes doentes um regime de reabilitação intensivo e multiprofissional, que se desenvolve até 60 dias para doentes com AVC grave, moderado ou ligeiro e tem como foco objetivos realistas e alcançáveis, através de planos terapêuticos suportados por prognóstico. Enquanto empresa, não aceitamos o “one size fits all”, porque uma solução não é suficiente e, por isso, procuramos localmente colmatar necessidades que não tenham sido ainda preenchidas e adequar as soluções a cada problema. A nossa visão é criar Valor através da Inovação a nível mundial, mas atendendo às especificidades de cada mercado. Uma prova disso, é o prémio BI Award Innovation in Healthcare, uma iniciativa exclusiva nesta fase para Portugal, que a Boehringer Ingelheim lançou em março, e que visa premiar ideias inovadoras, dando espaço à apresentação de projetos em diferentes áreas da saúde, como o acesso, a prestação de cuidados ou a organização em saúde, com o objetivo de garantir a retoma dos cuidados de saúde em Portugal, nomeadamente em tempos de pandemia.

A Boehringer Ingelheim é uma empresa que dedica perto de 20 por cento das suas vendas líquidas à área da Investigação e Desenvolvimento (I&D). Portugal é um país com bons recursos humanos e técnicos para levar a cabo esta investigação?

Portugal tem provas dadas na área da Ciência e Investigação. Por um lado, ‘exportamos’ cientistas e investigadores nacionais, que demonstram o seu valor nas melhores instituições de todo o mundo, e por outro faz sentido a aposta em I&D em Portugal, por termos recursos humanos com elevadas competências técnicas. Há, no entanto, um longo caminho a percorrer, sobretudo no que diz respeito à burocracia, que é, sem dúvida, o grande entrave em Portugal. Os decisores em Portugal têm de melhorar a nossa competitividade face ao resto da Europa e aos mercados emergentes, nos tempos de aprovação regulamentar e contratual, ou no atingimento do compromisso de recrutamento. O  investimento em Saúde é responsável pela geração de emprego com um elevado grau de diferenciação técnica, o que se traduz num motor para o desenvolvimento da sociedade. O setor da investigação clínica, em particular, poderá ser um dos principais motores da economia nacional, com um retorno de investimento estimado de 1,99 euros por cada euro investido. A participação média deste setor no emprego total tem aumentado e ronda atualmente os 10 por cento nos países da OCDE, com os níveis mais elevados para os países da Escandinávia (20 por cento na Noruega). O emprego no setor da Saúde em Portugal é relativamente baixo (5.9 por cento), o que indica que melhorias podem ser feitas a favor do bem-estar da população e do desenvolvimento económico[1].

A chegada da pandemia obrigou a uma intensificação da pesquisa por soluções relacionadas com a área respiratória. Como se posicionou a Boehringer Ingelheim, sendo reconhecidamente uma empresa especialista nesta área?

Uma das primeiras medidas de combate à pandemia, implementadas pela Boehringer Ingelheim, foi rever e avaliar a existência de compostos existentes na nossa antiga investigação antiviral que possam atuar diretamente no SARS-CoV 2 ou melhorar o curso da doença nas pessoas mais gravemente afetadas. Estamos igualmente a realizar uma triagem computacional de toda a nossa biblioteca de moléculas, com mais de um milhão de compostos, com cerca de 100 cientistas comprometidos no combate ao vírus. E, para isso, em muito tem contribuído a nossa vasta experiência em doenças respiratórias.  Além disso, os nossos cientistas estão a trabalhar arduamente, na identificação de candidatos, cuja capacidade de neutralização viral está a ser alvo de avaliação, em colaboração com o Centro Alemão de Pesquisa de Doenças Infeciosas (DZIF). Os investigadores da Boehringer Ingelheim integram ainda abordagens colaborativas inovadoras, que reúnem cientistas e líderes mundiais de todo o mundo, como a Iniciativa de Medicamentos Inovadores (IMI) da União Europeia, que reúne a indústria e académicos no desenvolvimento de tratamentos existentes ou novos para responder rapidamente à Covid-19. Um exemplo é o Acelerador Terapêutico para a Covid-19, lançado pela Fundação Bill & Melinda Gates, um projeto de colaboração único em toda a indústria de ciências da vida para ajudar a resolver esta emergência de saúde global. Assim, estamos em constante avaliação de uma série de potenciais oportunidades terapêuticas.

[1]Silva, José António Aranda.A indústria farmacêutica em Portugal página 190, disponível em:https://www.apifarma.pt/salaimprensa/Documents/Livro%2075%20anos.pdf

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